28 setembro 2017

Beleza Brutal

Tentaram te encaixotar
Te transformar em uma coisa pequenina
Fácil de carregar

Tentaram te classificar
Colocar uma venda em teus olhos
Pra você não mais enxergar

Tentaram te endurecer
Tornar teu ser pesado e escuro
Não queriam deixar você ver o dia alvorecer

Tentaram te calar
Fechar sua boca para sua voz silenciar
“Chega de gritar!”, eles disseram, “Chega de incomodar!”

Tentaram te domesticar
Te impor muitas regras, muitas normas
Te pôr numa jaula pra você não mais voar

Mas nem na jaula e nem na caixa você aceitou morar
A mordaça se recusou a usar
A venda em teus olhos não conseguiu te cegar
A dureza não foi capaz de te paralisar

Não sabiam eles que é impossível
Encaixotar, classificar, endurecer
Engaiolar
Um ser que é livre desde o seu nascer
Que não possui um par

Não sabiam que não dava
Pra calar, domesticar e prender
O indomável, o selvagem,
Aquilo tudo que vai dentro de você

Porque seu corpo não cabe em nenhuma caixa
O mar é pequeno demais pra você nadar
Seus olhos enxergam mesmo quando estão fechados
Seu coração bate forte demais pra apanhar

Seu grito grita alto,
Foi feito sob medida para confundir e perturbar

Minha beleza é brutal, machuca tua fragilidade muda
Você não me engana, é mais fraco do que se pode imaginar
Se assusta com a minha presença, minha existência
Te revolto e revoluciono apenas por aqui estar

Então vá tirando suas mãos de mim
Suas garras, meu amigo, não irão me agarrar
Sou moça, sou puta, sou minha, sou muito
Não sou mansa e nem santa
Você é pouco, não poderá me parar

#MexeuComUmaMexeuComTodas

22 setembro 2017

Wander

Tietar nunca foi comigo. Sei lá, fico constrangida e desconfortável, não consigo explicar. Mas sexta-feira, dia 15, foi IMPOSSÍVEL me controlar. Porque fui ao show do Wander Wildner, um dos caras que mais ouvi em toda minha vida.
Ouvi Wander quando era adolescente. Ouvi Wander enquanto crescia e me fodia, enquanto me metia em encrencas em série, enquanto tentava entender o que diabos estava acontecendo aqui. Ouvi Wander quando fui feliz, e quando fui triste também. Ouvi Wander quando fui morar longe de casa e me sentia tão, tão, tão sozinha. De certo modo, era ele quem me fazia companhia.
Ouvi Wander ontem, ouço Wander hoje, e com toda a certeza do mundo ouvirei Wander amanhã.
Este foi o primeiro show dele que eu assisti, e nunca vou esquecer – vide minha cara emocionada ali, ao lado dele, tietando descaradamente.
E a única coisa que eu disse pra ele foi: OBRIGADA.
Porque, sinceramente, não havia mais nada que eu poderia lhe dizer. 


18 setembro 2017

Você perde

Há alguns anos Carazinho mergulhou em uma onda de violência sem precedentes. Casas e estabelecimentos comerciais assaltados à luz do dia. Pedestres roubados em pleno centro às três da tarde. Assassinatos quase não impressionam mais.
Neste contexto, uma notícia abalou minha serenidade já escassa: estamos em vias de perder a instalação de um campus do Instituto Federal de Educação, que, se vier para Carazinho, disponibilizará curso superior gratuito para a comunidade, além de ensino técnico profissionalizante. Uma oportunidade única para nossa cidade, que poderá oferecer uma oportunidade igualmente única para aqueles que querem, mas não podem estudar.
Os altos índices de criminalidade em Carazinho e o descaso com o campus do Instituto – e com a educação de um modo geral – estão diretamente ligados, uma vez que a violência aumenta na mesma proporção em que as oportunidades diminuem.
Na minha visão, o problema da educação em Carazinho (e no resto do país) não é um problema: é um projeto. Estamos carecas de saber que governo nenhum, de partido nenhum, quer um povo pensante e questionador. E qual a maneira mais eficaz de manter o povo alienado, e consequentemente inofensivo? Negando-lhe a chance de aprender, de progredir intelectualmente. Mantendo o nível mental coletivo baixíssimo, fica mais fácil controlar a boiada. Um povo que pensa e questiona torna a vida dos políticos mais complicada.
Acontece que este projeto, de manter o povo mergulhado em sua própria ignorância, tem um furo muito grande. Porque a falta de acesso à educação gera falta de oportunidades, que por sua vez gera estagnação de crescimento. Afinal, pessoas que poderiam estar estudando, produzindo, movimentando a economia, e talvez até gerando emprego e renda, acabam inativas, e ao invés de agregar à sociedade, terminam prejudicando-a.
Em médio e longo prazo, quantos profissionais Carazinho perderá sem o campus do Instituto Federal de Educação? Quantos talentos acabarão simplesmente desperdiçados? E quantos não se tornarão o bandido que apontará uma arma para tua cabeça amanhã?
Manter a massa ignorante pode servir para conservar esta secular estrutura política corrompida, que beneficia meia dúzia em detrimento de muitos. Entretanto, a manutenção da ignorância traz um efeito colateral grave, que afeta a todos, do rico mais rico ao pobre mais pobre.
Porque o país onde vive o político é o mesmo país onde eu, você e o bandido vivem. A cidade violenta na qual eu, você e o bandido moramos é a mesma cidade violenta na qual moram nossos governantes. Somos um só organismo, cujas partes precisam funcionar em consonância para haver harmonia no todo.
Por isso, não são somente os alunos que perdem o campus do Instituto Federal de Educação. Eu perco; você perde. O mais rico e o mais pobre perdem. O prefeito, o ex-prefeito, o secretário e o vereador também perdem.
Carazinho inteiro perde.

15 setembro 2017

Uma pergunta:

Dizemos por aí que não nos importamos com a opinião dos outros, mas sempre que possível buscamos convencer os outros das nossas verdades, impondo nossas certezas, forçando-os a engolir o nosso ponto de vista – e AI daquele que discordar!
Se a opinião do outro não importa, porque nos importamos tanto em fazê-lo mudar de opinião?

07 setembro 2017

Quem são eles?

Você já parou pra pensar quem são os homens que alimentam os dados estarrecedores de violência contra a mulher? Quem são estes caras que agridem, espancam, estupram e matam, deixando o Brasil na indigesta 5ª posição em um ranking global de violência contra a mulher?
Seis em cada dez brasileiros afirmam conhecer mulheres que foram ou são vítimas de violência. E se você conhece a vítima, provavelmente conhece também o agressor, já que, na acachapante maioria dos casos, a violência contra a mulher é cometida por seu namorado, marido ou familiar.
Ou seja: o agressor não é um monstro de sete cabeças no meio da neblina. Ele não é um estranho. Ele é teu amigo, teu vizinho, teu pai, teu irmão. Ele pode ser – veja só! – até mesmo você, caro leitor.
Infelizmente nenhum vem com plaquinha de identificação, e este é o maior problema: o fato de poder ser qualquer um faz com que todos pareçam ser, e é assim que nós, mulheres, passamos a viver em constante estado de medo. Medo de usar uma saia muito curta. Medo de pegar transporte público e privado. Medo de andar na rua às oito da noite ou às três da tarde. Medo daquele desconhecido que caminha atrás de mim na calçada. Medo de precisar chamar o encanador para consertar a torneira quando estou sozinha em casa.
Toda mulher é uma vítima em potencial apenas por ser mulher. Mas os homens que não são violentos também pagam um preço pelos que são, e acabam indiretamente afetados pelo mesmo machismo que nos agride, nos estupra e nos mata. Afinal, se toda mulher é uma vítima em potencial apenas por ser mulher, todo homem é um abusador em potencial apenas por ser homem.
Seria diferente se nós, mulheres, não precisássemos estar sempre alerta. Se pudéssemos confiar no motorista, no encanador, no vizinho, no estranho com quem dividimos a calçada, no amigo que nos dá carona depois da festa. Seria diferente se pudéssemos confiar em ti, leitor.
Então, se você é homem e não agride nenhuma mulher; se você respeita uma desconhecida de minissaia na rua do mesmo jeito que respeita sua mãe; se você não bate, não humilha, não estupra e não mata; antes de se levantar indignado, com o dedo em riste, dizendo “mas nem todo homem...” ou “mas eu não sou assim...”, cale sua boquinha, ouça com atenção e observe o seu entorno.
Porque palavras rasas de autodefesa não mudam a realidade, não diminuem o nosso medo e nem fazem com que menos mulheres sejam agredidas e violadas.
Se você não é, ótimo, mas olhe em volta: você verá que muitos daqueles que te rodeiam, teus amigos do peito, teus bróders, teus camaradas, são os mesmos caras que alimentam as estarrecedoras estatísticas da violência contra a mulher, e me fazem ter medo de chamar o encanador quando estou sozinha em casa.
Você também conhece o agressor. Por isso, se o teu amigo pratica violência e você se cala, saiba que você é conivente. E conivência, meu caro, é cumplicidade. Logo, o nosso medo constante, infelizmente, sempre se justifica.

03 setembro 2017

Sexta-feira foi um dia muito difícil.

Estive no velório do pai de uma das minhas melhores amigas. Mas o tio Teco não era apenas o pai de uma das minhas melhores amigas. Ele era meu amigo também.
Sempre que eu ia visitar a Ana ele passava lá para me dar um abraço – e sempre (SEMPRE!) trazia umas cervejas a mais, porque dizia que a Ana comprava pouca cerveja quando eu ia lá, hahaha.
Nunca vou me esquecer dos abraços, da conversa boa e leve, do sorriso largo e farto que o tio sempre trazia no rosto, na alma e no coração.
Um ser humano especial, de uma energia linda e vibrante, que vai fazer uma falta danada neste mundo careta e quadrado, onde tantos reclamam por tão pouco.
O tio viveu como quis, e isso eu admiro demais: ter coragem de ser quem se é, e assumir a vida que você escolheu viver. Apenas existindo, o tio me ensinou muito.
Após o velório, triste e cansada, entrei na loja Beija-Flor, da Taly, e me deparei com este quadrinho, cuja foto tirei. Sorri discretamente quando o vi.
Porque eu sei, com a mais absoluta certeza, que a vida continua. E é justamente esta a beleza da vida: ela nunca termina.
Como disse o padre durante o velório: o tio deixou o mundo das criaturas e retornou para o mundo do criador.
E é lá que a verdadeira vida acontece.
Tchau, tio.
Até qualquer dia, meu amigo querido!


30 agosto 2017

Chega mais, jornal "Tribuna"!

Sempre achei curioso: há quatro anos eu escrevo para o jornal O Informativo Regional, de Sananduva, e há um ano eu escrevo para o jornal A Folha, de Não-Me-Toque. Já fui colunista de outros jornais e de alguns portais também, mas nunca antes na história de Jana Lauxen eu escrevi para um jornal de Carazinho – cidade onde nasci e onde vivo há quase 15 anos.
Bem que dizem que santo de casa não faz milagre. Ou que, em casa de ferreiro, o espeto é de pau.
Por isso, fico realmente muito feliz em anunciar que sou a mais nova colunista do mais novo jornal desta cidade que chamamos de nossa: o jornal Tribuna, cujo lançamento aconteceu ontem.
O convite veio da amiga e jornalista Jennifer Schmidt Mendez, e eu aceitei no ato! Assim, a cada 15 dias estarei na página 02 do jornal Tribuna dando opiniões que ninguém pediu e metendo meu bedelho em assuntos dos mais variados.
O mais legal é que o Tribuna vem com uma proposta realmente diferente: fazer jornalismo. Esmiuçar as notícias, ir atrás do que acontece. Vocês dirão: mas este é o papel de qualquer jornal, oras bolas! Mas, na prática, sabemos que a maioria das redações de jornais se confunde com seu departamento comercial, e nunca sabemos se o que estamos lendo é notícia ou informe publicitário, fato ou factoide, realidade ou ficção.
O Tribuna quer fazer diferente, e eu quero fazer diferente junto com o Tribuna.
Então só posso agradecer pela oportunidade, pelo espaço, pela confiança em meu trabalho, e dizer que é muito massa finalmente escrever para a cidade onde eu nasci e na qual eu vivo.
Porque santo de casa faz milagre sim, e em casa de ferreiro, o espeto nem sempre é de pau. 
Obrigada, e vida longa ao jornal Tribuna!


16 agosto 2017

Corpo são, mente insana

Quando nosso corpo adoece vamos ao médico, fazemos exames, tomamos remédio, buscamos ajuda. Se o rim inflamar, se o estômago estufar, se a cabeça doer, se o braço inchar, não há um ser humano sobre a Terra que não procure ajuda médica.
Contudo, não é apenas nosso corpo que adoece. Nossa mente e nossas emoções também. A diferença é que, quando surge a depressão, as crises de ansiedade, o estresse, geralmente não procuramos ajuda médica. Quando a doença se manifesta em nosso emocional, sumariamente a ignoramos – de um modo que jamais ignoramos as doenças que se manifestam em nosso corpo.
Acontece que somos uma sociedade extremamente materialista. Não acreditamos em nada que não possa ser pesado, medido, avaliado, encaixotado, comprovado, rotulado, tocado. Se eu não vejo, não existe.
Daí por que tantas doenças emocionais passam despercebidas: seu diagnóstico é mais sutil, suas feridas são imperceptíveis ao olho nu. Uma tomografia pode mostrar um tumor no estômago, mas qual tomografia pode indicar um tumor nas emoções?
Deste modo, tanto o doente quanto a família do doente passam a tratar a doença emocional como algo menor. Se descobrem um câncer, todos se comovem e se mobilizam; mas se descobrem uma depressão, a comoção e a mobilização caem para um terço. Sendo que, não raramente, a depressão mata mais do que o próprio câncer.
Resultado: somos uma sociedade doente vivendo como se fosse saudável. Uma sociedade que cuida do corpo com obsessão, mas negligencia totalmente suas emoções. E dá-lhe desequilíbrio, sofrimento, loucura generalizada.
Corpo são, mente insana.
É impossível viver com um rim doente. A dor, a febre e o desconforto impediriam qualquer um de fazer qualquer coisa. Do mesmo jeito, é impossível viver com as emoções doentes.
Porque a dor, a febre e o desconforto emocionais também são paralisantes, incapacitantes e potencialmente fatais.

14 agosto 2017

Maratona Literária

Nossas crianças são como sementinhas: precisam ser plantadas, regadas, protegidas e tratadas com todo amor e cuidado, para que possam nascer e florescer como cidadãos.
E a literatura é o melhor adubo para o plantio de cidadãos conscientes, inteligentes e, acima de tudo, humanos. Pois são os livros que nos ensinam a pensar com autonomia; são os livros que nos tornam intelectualmente independentes; que nos libertam da ignorância que machuca, cega e acorrenta.
Um país sem leitores é um país sem cidadãos.
Assim, esta última semana foi muito especial para mim, e para a Editora Os Dez Melhores também.
Porque, através de uma parceria muito bacana com o Sesc, pude visitar cinco escolas públicas aqui de Carazinho, e conversar com essa gurizada que é o futuro do nosso Brasil querido e judiado, tentando provar para eles que a literatura não é chata não; que a literatura é nossa amiga, nossa aliada, nossa guardiã.
A literatura é a chave que abre a porta desta cela na qual estamos todos encarcerados.
Eu acredito que plantamos uma sementinha promissora nesta semana que passou – uma sementinha que, não demora, vai nascer, crescer e florescer.
Mas saibam que vocês, queridos alunos, também plantaram uma sementinha em mim. Uma sementinha de esperança; de crença em um amanhã diferente, novo, bonito, mais colorido, mais vibrante. Mais feliz.
Um amanhã onde seremos donos de nossas próprias opiniões, e onde enxergaremos muito além dos muros altos que apenas servem para separar nossos quintais.
Estão plantadas as sementes, e eu sei que elas não demoram a brotar.
Afinal, o amanhã logo vem. 

Foto: Fernão Duarte.
Veja mais fotos da Maratona Literária clicando aqui.