23 junho 2017

A Menina do Vídeo Pornô

Toda vez que um vídeo pornográfico caseiro cai na internet, o que se vê, se ouve e se lê são acusações e xingamentos direcionados exclusivamente para a menina que participa da gravação. Puta. Burra. Vadia. Bem feito pra ela. A garota é escorraçada, crucificada, queimada na fogueira, a ponto de ter de abandonar trabalho, escola, cidade, uma vida toda. Mas para o rapaz, que geralmente foi quem gravou e espalhou o vídeo, silêncio. É como se ele não existisse. Justamente ele, o responsável por expor publicamente, e de forma criminosa e traiçoeira, o vídeo ou as fotos de momentos que deveriam ser rigorosamente íntimos.
A menina que se deixa filmar ou fotografar pode, no máximo, ser acusada de ingênua. Pois acreditou que aquela ocasião seria mantida em sigilo; que seria respeitada pelo companheiro, seja ele seu namorado ou não. Já ele, cometeu um ato criminoso perante a lei, e imoral perante as regras mais básicas de civilidade e respeito ao próximo. Também se mostrou um perfeito idiota; um infeliz que precisa afirmar sua própria masculinidade diante dos outros, e que seria digno de pena, caso não fosse, antes, digno de punição.
Ela é a vítima, e fim. Ela foi enganada; ela foi exposta publicamente. Ela será conhecida, por muito tempo, como ‘a menina do vídeo pornô’. E ela não é ‘a menina do vídeo pornô’. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Muitas são menores de idade, e nem completaram quinze anos ainda. Ela poderia ser sua irmã, sua filha, sua mãe, sua melhor amiga. Ela poderia ser você.
A maneira como a sociedade trata a mulher, vítima de casos como estes, só comprova o quanto somos machistas, preconceituosos, atrasados e conservadores. Repetimos mecanicamente o lugar-comum: ‘ele é homem, está fazendo o seu papel’. ‘Ela deveria se dar ao respeito’. ‘Comedor’. ‘Puta’. E assim vamos fortalecendo a engrenagem que mantém este tipo de crime tolerável.
Toda vez que ofendemos e denegrimos a menina; toda vez que passamos adiante estes vídeos e estas fotos, estamos sendo coniventes. Estamos deixando de punir o culpado para punir a vítima.
Não concorda comigo? Ok. E é por isso que eu espero que crimes assim parem de acontecer imediatamente. Porque quando chegar a sua vez, ou a vez de sua filha, sua irmã, sua mãe, sua melhor amiga, você vai descobrir da pior maneira que ‘aquela menina do vídeo pornô’ é muito mais do que aquela menina do vídeo pornô.

16 junho 2017

Amanhã o refugiado pode ser você

Imagine você: o Brasil entra em guerra. De uma hora para outra, explosões e rajadas de tiros se tornam rotina em sua rua, em sua cidade, em seu estado, em seu país. Cidades inteiras são devastadas, mulheres são estupradas, crianças são assassinadas. Milhares morrem. Não demora, e começa a faltar água, comida, energia elétrica. A vida aqui se torna insustentável.
O que você faria?
Provavelmente o mesmo que eu, e o mesmo que estes milhões de refugiados sírios, senegaleses, haitianos estão fazendo: você iria fugir. Pegaria uma mala, algumas roupas, o que sobrou de sua família, e daria o fora. Caminhando, correndo, de barco, de carro, em cima de uma mula. Pouco importa. O que interessa é sair daqui.
Agora imagine que, neste contexto, nós, brasileiros, chegamos a outro país, cuja guerra não é realidade. Estamos humilhados, machucados, sujos, exaustos, famintos. Nossas crianças e nossos idosos, idem. E ao invés de sermos acolhidos, como os seres humanos que somos, fôssemos maltratados, xingados, intimidados. Proibidos de entrar.
Desculpem, mas isso não cabe na minha cabeça. Não consigo entender, e muito menos aceitar, que estas pessoas sejam tratadas como escória, como se fossem uma praga a ser exterminada – e não como seres humanos fugindo da guerra, da morte, da fome. “Mas isto causará um forte impacto econômico nos países que receberem estes refugiados”, dirão os teóricos. E sabe o que eu respondo aos teóricos? FODA-SE o impacto econômico. Estamos falando de mais de 60 milhões de pessoas expulsas de suas casas em todo o mundo, e que não virarão fumaça e se dissiparão no ar só por que a economia precisa continuar crescendo. São pessoas que precisam de abrigo, de amparo, de um pouco de segurança, de um prato de sopa e um copo de água.
Se a solução não é acolher, qual é a solução? Incinerá-las numa fogueira, para que suas presenças não atrapalhem nossa vida confortável e feliz?
No entanto, devo dizer: não fico surpresa com o tratamento que dispensamos aos refugiados. Nós, em nossas casas seguras e quentinhas, deitados no sofá assistindo Netflix de barriga cheia, gostamos de apontar o dedo aos miseráveis, aos necessitados, aos famintos, aos viciados, aos excluídos, e julgá-los severamente.
Agimos como trogloditas, ao mesmo tempo em que vamos à igreja, lemos a bíblia, e postamos frases fofas no Facebook.
Que esta crise global dos refugiados sirva para que nos reavaliemos enquanto sociedade dita cristã. Enquanto indivíduo dito cristão. E, se não cristão, ao menos civilizado. Que sirva para nos fazer entender que já passou da hora de aprendermos a nos colocar no lugar do outro, e vê-lo com olhos mais generosos e amigos. Já passou da hora de olharmos as outras pessoas como pessoas, e perceber que o bem-estar delas é tão importante quanto o nosso bem-estar. Chega de dois pesos e duas medidas.
Até por que, o jogo vira, meus amigos.
Hoje são os sírios, os senegaleses, os haitianos; amanhã poderá ser os americanos, os japoneses, os europeus. Amanhã poderá ser nós, brasileiros. E eu acho que, em uma situação assim, você não iria querer ser recebido com hostilidade por quem, em condição melhor, poderia realmente auxiliar.
Ajudar é sempre melhor do que ser ajudado, e neste momento nós podemos ajudar. Que assim seja, então.

14 junho 2017

Renan.


Esta foto foi tirada em 2007/2008, e este cara que está comigo se chama Renan Soso.
Eu o conheci em 2002, quando entrei para a faculdade, e desde então ele se tornou alguém fundamental na minha vida. Simplesmente não consigo imaginar quem eu seria sem ele. Estudamos juntos por cinco anos, trabalhamos juntos por um ano, fomos vizinhos por dois anos. Ele esteve presente na minha vida de diferentes formas, e estava lá nos momentos mais coloridos, e também nos mais pálidos e sem cor.
Até o dia em que ele foi embora para Porto Alegre.
Contudo, sua presença segue viva, firme e forte na minha vida. Afinal, ele faz parte da pessoa que eu me tornei. Ele está nas minhas conquistas, no meu trabalho, na minha literatura. Ele está nas decisões que eu tomo, nos caminhos que eu percorro. Ele está na minha saudade, no meu coração, nos meus pensamentos, na minha memória. Ele está em mim.
E hoje o Renan faz aniversário. Por isso escrevo este texto, para dizer para ele o que ele já está careca de saber: eu o amo de tantas maneiras, que fica difícil explicar em palavras pagãs.
O Renan mudou para Porto Alegre, depois para Caxias do Sul, casou, tem uma filha linda chamada Cecília. Não somos mais vizinhos, não trabalhamos e nem estudamos mais juntos.
Mas quando a gente se encontra, é como nesta foto.
É como em 2002, em 2007, é como sempre foi. Apesar da distância; apesar da gente conversar muito menos do que eu gostaria e precisaria; apesar da saudade imensa e dolorida; nada, nada, NADA mudou.
Quando a gente se encontra, voltamos para esta foto, para este apartamento, para esta época querida em que tudo era tão simples, miúdo e belo.
O orgulho que sinto de ti, Renanzito, é do tamanho do ser humano que você é. Você é gigante, e eu só posso agradecer ao universo por ter a honra de contar com a tua presença na minha vida, todos os dias, de todas as formas.
Te amo, irmão.
Feliz aniversário!


08 junho 2017

Jornada Nacional de Literatura para quem quiser

Eu sempre tive restrições com a Jornada Nacional de Literatura, e a principal delas era o preço. As inscrições sempre estiveram além, muito além das minhas possibilidades. E assim como eu, obviamente centenas de outras pessoas também não tinham grana para participar. Por conta do preço do ingresso, a Jornada terminava por elitizar seu público, e para mim tudo o que elitiza e exclui é ruim.
Para piorar, além dos valores nada camaradas das inscrições, a Jornada ainda recebia uma boa grana do governo, tanto municipal, quanto estadual e federal. Em 2009 foram 1,1 milhões de reais. Em 2015 a Jornada precisava de meros 3,5 milhões, valor este que não foi obtido, o que gerou o cancelamento e a saída de Tania Rösing do comando da Jornada – cargo que ela ocupava desde sempre.
Muita gente chorou e lamentou o cancelamento, mas eu não. Afinal, a Jornada não havia sido extinta para sempre, e segundo diziam, seria remodelada para se tornar mais “acessível”.
“Acessível”, esta é a palavra que abre portas e mentes! Fiquei feliz com o discurso, mas sempre com aquela pulga atrás da orelha, já que falar é bem mais fácil do que fazer.
No entanto, recentemente divulgaram os valores das inscrições para a 16ª Jornada, que acontece entre 02 e 06 de outubro deste ano. O pacote mais caro custa R$150, e inclui todas as atividades. O mais barato custa R$100, e alunos e professores da UPF têm 50% de desconto.
Ainda achou caro? Então saiba que, em 2009, há longínquos oito anos, o valor da inscrição era R$130. Sendo que, naquela época, o salário mínimo não alcançava R$500. Não é preciso ser um economista para entender que a Jornada não era para quem queria, mas para quem podia.
Significa que melhorou. É o ideal? Não. Está tudo perfeito e maravilhoso? Não. Eu ainda sonho com o dia em que Jornadas de Literatura custarão quase nada, e quiçá serão gratuitas.
Mas baseio meus anseios na realidade, e sei que o mundo não muda em um piscar de olhos, no apertar de um botão, no estalar de um dedo. O importante é que, de 2009 para 2017, melhorou um pouco, o que já é incrível, uma vez que tantas outras coisas pioraram tanto de lá pra cá.
A arte, a cultura, a literatura precisam se tornar cada vez mais acessíveis. Não podem ser privilégio de meia dúzia. E para que isso aconteça, precisamos levar a arte, a cultura e a literatura até quem quer, mesmo que não possa.

29 maio 2017

“Hoje em dia não dá pra falar mais nada: tudo é racismo, machismo, preconceito”

Eis a frase mais pronunciada por quem nunca sofreu racismo, machismo e preconceito. E vejam só o drama vivido por estas pobres criaturas: agora elas não podem mais debochar em paz de homossexuais, de negros, de deficientes físicos, de mulheres, de imigrantes, pois sempre haverá um “chato” para reprimi-las, para questioná-las, para constrangê-las. “Agora não dá pra falar nada”, elas reclamam.
Que vida irritante essa do “politicamente correto”, não? Não.
No entanto, por mais que me pareça óbvio que “piadas” que humilham grupos que já são humilhados não são piadas coisa nenhuma, sei que para muitas pessoas é difícil acompanhar o andar da carruagem.
Porque o mundo mudou muito nos últimos anos. De modo que, a maioria dos discursos que nos ensinaram, e que nascemos e crescemos ouvindo e repetindo, simplesmente não fazem mais sentido agora.
Porém, para abrir mão das lições erradas que aprendemos, precisamos primeiro admitir que as lições que aprendemos estão erradas. Um processo de desconstrução íntima que, para alguns, é aterrorizante.
Assim sendo, quando o sujeito se vê diante de uma situação onde suas crenças – pessoais, familiares, políticas – são questionadas e comprovadamente derrubadas, ele tem dois caminhos para seguir: o primeiro, e mais inteligente, é admitir o erro e tentar entender como, onde e por que errou. O segundo é se agarrar na lição errada com unhas, dentes e desespero. A maioria ainda escolhe a segunda opção.  
Afinal, é mais fácil bater o pé e dizer “não importam os dados, os fatos, as estatísticas, a realidade; essa é a MINHA OPINIÃO”, do que reavaliar suas certezas, assumir que errou e mudar de ideia.
Por isso é tão difícil de conversar com algumas pessoas, cujas opiniões seguem enraizadas a preconceitos primitivos, e nenhum argumento é capaz de colocá-las a refletir. São pessoas que não estão dispostas sequer a ouvir o outro lado, e justamente por isso possuem uma visão tão limitada; elas só enxergam a partir de seu minúsculo e deturpado ângulo.
Todavia, para que nossa sociedade melhore, nós precisamos melhorar como indivíduos. Precisamos ter mais compaixão e simpatia na hora de ver o outro.
Fazer piada de grupos que ainda lutam pelos seus direitos civis mais básicos, além de estúpido, endossa o discurso do opressor e agride o oprimido. E é assim que assumimos, também, o papel de opressor.  
Então, se quem é vítima do racismo, do machismo e do preconceito apontar o racismo, o machismo e o preconceito em você, em vez de se ofender e se defender, apenas escute e reflita. 
Porque, acreditem: não nos tornaremos melhores ou menos violentos rindo da dor alheia. Rir do próximo é uma forma de silenciá-lo.
E quem silencia não pode reclamar quando é silenciado.

23 maio 2017

Bruno

Foi assim: há algum tempo o Fernão Duarte me contou que conheceu um menino chamado Bruno, que lhe disse que tomou gosto pela leitura depois de assistir a minha palestra, A Literatura Não é Chata, e ler meu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.
De lá pra cá o Bruno já leu mais de 100 livros, e mantém uma estante repleta de títulos em sua casa. Sua média de leitura são 30 livros por ano – goleada sobre a média nacional, que não ultrapassa dois míseros livrinhos por ano.
É claro que não tenho a pretensão de dizer que o Bruno começou a ler por minha causa. Afinal, a semente da leitura já estava ali. O máximo que eu fiz foi dar uma adubada, regar, e feito: nasceu mais um leitor!
De qualquer maneira é um orgulho pra mim. Afinal, quando elaborei a palestra A Literatura Não é Chata, meu objetivo era justamente este: convencer ao menos UM estudante das vantagens e benefícios da leitura. Eu sempre disse, ao final de cada palestra, que, se pelo menos um aluno ali presente desse uma chance para a literatura, então tudo teria valido a pena.
O Bruno é um destes alunos que faz tudo valer a pena. Que resolveu experimentar a literatura, e nunca mais a abandonou. E eu só posso agradecer pela confiança, pelo carinho, e por ele permitir que eu fizesse parte do trampolim que o lançou para este universo mágico e único dos livros, que só quem lê conhece e entende.
Hoje o Bruno é um jovem perigoso: perigoso para um sistema corrupto e falido; perigoso para uma sociedade preconceituosa e violenta; perigoso para todos aqueles que desejam, através da ignorância, conservar o povo subserviente.
Bruno se tornou um cidadão ameaçador para quem não deseja transformar o mundo em um lugar mais pensante e menos triste. Agora ele representa perigo ao status quo.
De minha parte, fico muito feliz por ter ajudado o Bruno a se armar e se municiar contra a estupidez de um país que só lê dois livros por ano, e acredita que cultura é coisa de vagabundo. Um Brasil judiado, intelectualmente inabilitado para perceber que é refém da própria inabilidade intelectual.
Bruno é parte de um exército ainda pequenino e discreto, mas que cresce a cada dia. Um exército de desobedientes, que sabem que não há prisão mais desumana do que aquela que mantém seus presos em cárcere intelectual. Um exército que luta com livros, ao invés de armas.
Um exército que deseja libertar todos os presos intelectuais deste país, e que acredita na intervenção literária e cultural para nos arrancar da poça de lama onde estamos nos afogando.
Bruno, seguimos juntos! 


(Matéria sobre o Bruno e O Túmulo do Ladrão, publicada na coluna DuArt&Cultura, do meu querido Fernão Duarte, na última edição do jornal Correio Regional. Valeu, Fernãozito!)

15 maio 2017

Perto da minha casa tem uma pracinha.

Pequenina, um charme só. Porém, esta pracinha sempre esteve descuidada e desamparada: grama alta, bancos demolidos, pouca iluminação, sujeira. Não demorou, virou ponto de bebedeira e uso de drogas. Ao entardecer, os moradores, vizinhos da praça, somente observavam a movimentação estranha através de suas cortinas e grades.
Até que, cansados da situação, os vizinhos decidiram se reunir, se mobilizar e tomar uma atitude. Então limparam a praça, trocaram a luz do poste, cortaram a grama, consertaram e pintaram os bancos, colocaram um balanço e um escorregador. Sem contar a geladeira cultural, que já está cheia de livros.
Resultado: revitalização. De ponto de drogas a ponto de encontro em poucas semanas. Estes dias passei por ali (algo que não costumava fazer antes, admito), e vi uma mãe sentada com seu filho pequeno, de uns quatro anos, lendo um livrinho. Quase chorei. Minto: eu chorei. Porque estava vendo, com estes olhos que a terra há de comer, como pequenas atitudes podem mudar o mundo inteiro.
O Brasil precisa se revitalizar como esta pracinha. E esta revitalização, tal e qual aconteceu com a pracinha, passa pela mudança e mobilização das pessoas que ali vivem. Os moradores poderiam continuar trancados em casa depois das 18h, reclamando dos viciados, da sujeira, do governo, da vida, de Deus. Mas decidiram levantar suas bundinhas do sofá e tomar uma atitude.
Esta pracinha não é a primeira a ser revitalizada por seus vizinhos em Carazinho, e tenho certeza que não será a última. Porque, vagarosamente, estamos compreendendo que a cidade onde moramos é nossa, minha e tua, e toda vez que a agredimos e a negligenciamos, estamos agredindo e negligenciando nosso próprio lar – como quem cospe no prato no qual come. Esta compreensão transforma o cenário de uma pracinha, mas transforma também o cenário de todo um país.
Mais do que criticar nossos governantes – e nós devemos criticá-los, claro! – devemos também assumir nossa responsabilidade por este Brasil judiado que habitamos. A pátria amada está ferida e a culpa também é minha. E tua.
É óbvio que o governo deveria cuidar do país, e é óbvio que a prefeitura deveria cuidar das nossas praças. Fazer pelo menos o mínimo, como manter a grama cortada e os postes de luz ligados. Isso muda tudo e custa quase nada. Mas não, eles não fazem. E se nossos governantes não fazem, precisamos cobrá-los, mas precisamos também fazer. Caso contrário, seremos exatamente como eles.
Porém, se você acha que revitalizar uma pracinha não ajuda a revitalizar um país, pense comigo: quão diferente seria nossa realidade se todas as pracinhas de todos os bairros de todas as cidades de todo o Brasil estivessem bonitas e atrativas?
A mudança sempre parte do indivíduo para o coletivo; vem de baixo para cima, de dentro para fora. Não se revitaliza uma pracinha sem o apoio de cada pessoa que vive ali. Imagina um país.

Foto: a pracinha perto da minha casa. Por Alessandro Finger. 

09 maio 2017

"O Túmulo do Ladrão": 4 anos!


Hoje completam quatro anos do lançamento do meu 2º livro, O Túmulo do Ladrão, publicado pela Editora Multifoco e editado pelo meu querido Frodo Oliveira.
Há quatro anos eu morava em Sananduva/RS, e realizei o lançamento na Casa da Cultura Prefeito Hilário Copatti durante o Dia Literário. Foi a primeira vez que eu ministrei a palestra “A Literatura Não é Chata”, que depois repeti inúmeras vezes, em inúmeras escolas. E também foi a primeira vez que realizei uma oficina com estudantes, e os textos elaborados por eles neste dia se transformaram no livro Conte um Conto Vol. II, lançado em 2014.
Ou seja: o dia 9 de maio é um dia muito importante para mim.
Obrigada Silvia Regina Tartari Neves e sua trupe incrível da Casa da Cultura, e aos amigos mais que especiais do Colégio Estadual Sananduva, por abrirem suas portas e me deixarem entrar.
Obrigada ao Frodo Oliveira e a galera da Editora Multifoco, que sempre confiaram e apostaram no meu trampo.
Obrigada ao Mario Cau, grande amigo e grande artista, responsável pela ilustração (foda) de capa d’O Túmulo do Ladrão.
Obrigada ao Afobório, meu parceiro e cúmplice, pelo apoio e sustentação, e aos meus pais, que são apenas os pais mais sensacionais do sistema solar.
Obrigada também ao Leandro Becker, meu primo, meu amigo e meu sócio nos empreendimentos Gatos Contra-Atacam (hahaha), que prefaciou lindamente O Túmulo do Ladrão.
Não, não parece que foi ontem. Parece que foi há quatro anos mesmo.
E tudo o que aconteceu entre o dia 9 de maio de 2013 e o dia 9 de maio de 2017 – e foram tantas coisas legais! – eu devo a vocês, amigos, que sempre estiveram ao meu lado, me empurrando pra frente, me dizendo: VAI!
Eu e O Túmulo do Ladrão não estaríamos aqui sem vocês!



08 maio 2017

Você, o presidente da empresa e o garçom

João é gentil e cortês com o presidente da empresa, pois sabe que se trata de um homem distinto, bem-sucedido, poderoso, e que obviamente está acima dele na pirâmide hierárquica que compõe nossa sociedade. Nesta pirâmide, o presidente da empresa está lá em cima, e João está ali pelo meio. Logo, João se comporta com deferência, e até certa submissão, quando está em sua presença, pois se considera menos importante do que o presidente da empresa.
Mas João não é gentil e cortês com o garçom, pois sabe que o garçom está abaixo dele na tal da pirâmide. Por isso, não há a menor necessidade de tratá-lo com respeito, e nem mesmo com educação. João se considera mais importante do que o garçom.
Eu conheço pessoalmente dezenas de Joãos, homens e mulheres, ricos, pobres, brancos, negros, analfabetos e doutores. E algo que é idêntico em todos é modelar o tratamento que dão ao próximo baseado em quem o próximo é. Gente que se considera genuinamente inferior em relação a alguns, e genuinamente superior em relação a outros. Algo bem perturbador.
Contudo, assim é a sociedade; assim somos nós. Nunca nos sentimos iguais: ou nos achamos inferiores, ou nos achamos superiores. A nossa percepção sobre quem somos diz que o presidente da empresa está acima e o garçom está abaixo, mas a verdade é que não existe em cima e embaixo, só ao lado.
Porque essa pirâmide é imaginária; ela não é real. Nós a forjamos, e colocamos lá em cima quem tem mais grana, poder e influência, e lá embaixo quem não tem. E nesta organização injusta nos ajeitamos ali pelo meio, onde conseguimos lamber o chão onde passa o presidente da empresa, e pisar na cabeça do garçom. Tudo o que sofremos com o primeiro descontamos no segundo.
E o mais curioso é que esta postura submissa/opressiva não tem nada a ver com o outro. O presidente da empresa e o garçom são coadjuvantes nesta história. Esta postura tem a ver com a forma como nos enxergamos. E é aqui, exatamente aqui, que reside o grande problema.
Já passou da hora da gente começar a se perceber como realmente é, ou seja: iguais. O imigrante e o conterrâneo, o mendigo e o patrão, o louco e o sensato, o viciado e o abstêmio, eu, você: todos humanos.
Quando isso acontecer, e esta pirâmide ilusória se desintegrar, certamente seremos mais felizes. Porque, quando paramos de pisar, paramos de ser pisados. Seja você o presidente da empresa ou o garçom.

04 maio 2017

Nascidos para criar

Eu acredito que o ser humano é uma criatura essencialmente criativa, de fato nascida para criar. Está em nossa natureza realizar atividades que gerem resultados palpáveis, seja lavar a louça ou salvar golfinhos da extinção. E quando não criamos, quando nossa mente e nosso corpo mantêm-se em inatividade, deprimimos nosso organismo de diferentes maneiras.
É lógico que o descanso e o lazer são importantíssimos para nossa saúde, seja física ou emocional. O problema é quando o tempo em repouso é igual ou maior que o tempo em movimento. Aí dá pane no sistema central.
Percebo que, enquanto sociedade, passamos muito tempo em estado passivo: assistindo TV, acessando as redes sociais, jogando joguinhos virtuais, navegando aleatoriamente pela internet. Situações letárgicas que exigem de nosso cérebro pouco ou nenhum esforço produtivo e criador. Neste processo, a preguiça mental gera a preguiça intelectual, que por sua vez gera a preguiça física – este mal que aflige e paralisa tantas pessoas, muitas vezes levando a quadros psíquicos realmente graves.
Não é apenas nosso corpo que precisa de atividade. Há também o sedentarismo mental, que é tão nocivo quanto o sedentarismo físico.
Realizar, produzir, inventar, fazer acontecer – seja lavar a louça ou salvar golfinhos da extinção – estimula positivamente nosso cérebro, tirando-o do entorpecimento.
Tudo o que nos coloca em situação de espectador, quando em excesso, termina por nos aniquilar.
Porque não nascemos para assistir. Nascemos para criar.