13 março 2017

Obscena

Quantos artistas você conhece em Carazinho e região?
Com certeza menos do que gostaria, deveria, poderia e precisaria.
Porque a cena cultural de nossa cidade vai muito além dos artistas que estão sob holofotes. Existe uma cena contracultural que não está no centro, e nem nos jornais e revistas, e muitíssimo menos nos calendários oficiais do município. Uma cena que não está sob holofotes, mas que nem por isso deixa de existir.
Muito pelo contrário.
Por isso nós, da editora carazinhense Os Dez Melhores, ficamos felizes em anunciar o início do projeto editorial da revista Obscena – Observe a cena underground, uma publicação que buscará reunir os artistas independentes de Carazinho e região que não encontram espaço entre as estruturas tradicionais para divulgar e promover sua arte. Artistas do underground, no sentido literal da palavra.
A Obscena convida o leitor a olhar para o lado, e conhecer uma cidade cultural inteira, que existe, pulsa, e está bem embaixo dos nossos narizes, apesar da gente simplesmente não ver.
Observe a cena underground de sua cidade, e permita surpreender-se.


10 março 2017

10 anos para um homem de 80 é pouco mais de 10% de sua vida.

10 anos para uma criança de 10 é 100% de sua vida.
10 anos para um cachorro é muito; para uma tartaruga, pouco.
Para o calendário, uma década. Para a História, uma minúscula partícula de tempo.
10 anos, pra quem chora, é uma eternidade; pra quem ri, passa voando.
Pra mim, 10 anos são mais ou menos 33% da minha vida. Bastante tempo, convenhamos. E nesta semana, mais precisamente no emblemático dia 8 de março, completou-se 10 anos de um acontecimento que mudou o rumo de tudo por aqui.
Dia 8 de março fez 10 anos que eu e o Cavanhas decidimos subir no mesmo lado do ring e lutar juntos; abrir os atalhos em parceria, aguentar os trancos se apoiando um no outro, nadar contra a maré na mesma direção. Duas cabeças pensam melhor que uma, e quatro mãos são mais eficientes que duas.
E apesar de 10 anos representarem um terço da minha vida, posso dizer que não vi esse tempo todo passar. E não vi, porque foram 10 anos de mansidão e quietude – embora o ring, as lutas, os trancos e a maré.
Nunca vou esquecer. Na primeira vez que saímos juntos, o Cavanhas citou uma frase de Pierre-Joseph Proudhon, dizendo ser seu mantra:
“Aquele que colocar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”.
Lembro de ter pensado na ocasião: será?
Será que esse cara não está fazendo um tipo?
Será que não está tentando posar de legalzão, e daqui a pouco vai encher o meu saco porque coloquei uma saia ou cumprimentei um amigo, como todos antes dele fizeram?
Será que ele tem consciência de que, se eu não posso colocar minhas mãos sobre ele para governá-lo, ele também não pode colocar suas mãos sobre mim para me governar?
Por que, olha: eu nunca acreditei no conceito de relacionamento que vigora por aí. Sempre achei meio absurda a ideia de que casar é como ir pra cadeia ou para o matadouro, ou como ser contido, proibido, capturado, amordaçado, enlaçado. Relações baseadas em autoridade, onde um manda e o outro obedece, onde um fisga enquanto o outro é fisgado, nunca me pareceram inteligentes, e muito menos divertidas.
De ciúme então, nunca entendi, e tive de fato problemas com ex-namorados, que faziam beiço e reclamavam que eu não os amava porque não tinha ciúme.
“Como assim?”, eu pensava injuriada. Era justamente por que eu gostava – e consequentemente confiava e respeitava seus espaços – que eu não tinha ciúme.  
Eles nunca entenderam porra nenhuma do que eu dizia, e eu conjecturava com meus botões: fodam-se então.
Não vim ao mundo pra usar cabresto, e se era para viver como um cachorro amarrado no poste, a coleira curta que não alcança nem o portão, tendo de dar satisfações sobre tudo o que eu faço e penso e visto e sinto – regalia que não concedo nem para o meu pai, que trocou minhas fraldas sujas, me alimentou, me aguentou na adolescência, e até pagou minha faculdade – então que eu fique só. Melhor só, do que acompanhada por alguém que não acredita em mim.
Logo, conhecer o Cavanhas, com todo aquele papo libertário, realmente me encafifou. Em um mundo onde o ciúme é tratado como prova de amor, só podia ser pegadinha do Faustão.
Mas não era.
Não é.
10 anos transcorreram, e em nenhum destes 3.650 dias duvidamos da palavra um do outro.
Contudo, não se iluda, amigo leitor, pensando que somos almas gêmeas, porque não somos, assim como não nos completamos, porque sempre fomos inteiros. Apenas resolvemos que seria uma boa ideia ir junto, ao invés de separados.
Sei que sou sortuda por encontrar alguém que vê o amor como eu: com respeito à individualidade do outro, e a todo seu universo particular gigante e complexo. Sou sortuda por encontrar alguém que precisa de liberdade mais até do que precisa de ar, de água, de pão, de amor. Tal e qual eu.
Alguém que sabe que não se pode ser feliz sem ser livre. Não se pode ser feliz quando alguém coloca as mãos sobre você, e tenta lhe governar. Afinal, quem faz isso é um ditador, um tirano, e devemos declará-lo nosso inimigo.
10 anos ao lado de um inimigo deve ser tempo pra caramba.
Mas 10 anos ao lado de um amigo, de um cúmplice, de um aliado, passa voando.
Por isso eu sei que, daqui 10 anos, vou escrever um novo texto, contando sobre como metade da minha vida passou sem que eu pudesse sequer perceber. 

2007.


03 março 2017

Queria

Queria ter uma religião e acreditar em santos e livros sagrados.
Queria um símbolo para idolatrar, um partido para me filiar, uma sigla para vestir, uma bandeira para hastear no quintal.
Queria falar da novela, odiar o vilão, torcer entusiasticamente pelo mocinho.
Queria ter fé no amor romântico, e nas palavras do Papa.
Queria uma ideologia pela qual morrer, e queria ter certeza pelo que morreria.
Eu queria acreditar no que diz a TV, o jornal, a previsão do tempo, a bula do remédio.
Queria confiar que o colete salva-vidas pode realmente evitar que a gente afunde.
Queria tomar banho de sol no verão sem medo de me queimar.
Queria dividir o mundo em rótulos, classificar pessoas e sentimentos em ordem alfabética; ignorar o início e o meio, me focar só nos fins. Queria ter respostas para todas as perguntas, e publicá-las na internet.
Queria acreditar no médico e no astrólogo.
Eu queria o preto ou o branco, a esquerda ou a direita, aqui ou aí, do meu lado ou contra mim.
Queria fazer listas de compras e de resoluções de ano novo, e me cadastrar em promoções, instituições, premiações, congregações, associações, fundações.
Queria respeitar e temer a autoridade.
Queria chamar meu cachorro de filho, e queria ter filhos para chamá-los de príncipe e princesa e pequeninos de mamãe.
Queria confiar na lei, na justiça, no político, na polícia, no segurança do shopping. E crer em fórmulas mágicas, receitas prontas, pague e pegue, pague e leve, pague e suma.
Queria participar de reuniões e acreditar em reuniões e agendar reuniões e me esbaldar com reuniões.
Queria ser enganada e feliz.
Queria jogar o jogo, e entender suas regras. Mover as peças com destreza, ser movida sem culpa e sem objetivos, somente uma peça no tabuleiro.
Queria pagar em dia as 10 prestações sem juros, trocar o sofá de lugar, mudar a cor da parede, o corte do cabelo, acreditar que isso é o suficiente.
Queria comer grãos integrais, proteínas e batata-doce, e prestar continência, dizer amém, sim senhor, com certeza. Eu concordo.
Queria entender de ciúme e patriotismo, e sentir medo de falar alto, medo de fazer perguntas muito difíceis, medo de não ser convidada, medo de parecer burra ou inteligente demais, medo de ter medo, medo só de falar!
Queria saber implorar, e conversar manso e baixinho para não incomodar quem está dormindo.
Queria acreditar que Elvis não morreu, que a guerra faz sentido, que a gravata não sufoca, que tudo o que eu sei é tudo o que existe no universo.
Queria escrever uma história de amor com palavras fáceis de entender e gosto de mamão, açúcar e “viveram felizes para sempre, fim”!
Queria trocar as horas que constituem minha vida por pão e dinheiro.
Queria manter minha coluna ereta e a cabeça baixa, em sinal de obediência.
Queria rir das piadas; fazer parte do time da escola e da coluna social; deixar a TV ligada para não ver meu reflexo ali.
Queria acreditar em promessas, em propagandas, em candidatos, em vendedores de carro, em pastores e padres e líderes. Acreditar em homens engravatados, em cientistas, em livros de História. Queria crer cegamente na Lei de Talião.
Queria comprar um quadro que eu não entendo, ter coisas de que não preciso, comer uma comida que eu não gosto e sorrir.
Queria caminhar por aí como quem sabe para onde vai.

E, acima de tudo, eu queria querer tudo isso.
Mas não quero e, sinceramente, está tudo bem. ;) 

28 fevereiro 2017

O que seria?

O que seria do santo sem o pecador?
Do mocinho, sem o vilão?
Do obediente, sem o insurgente?
De deus, sem o diabo?
Do nobre, sem o vulgar?
Do sono, sem o cansaço?
Do belo, sem o feio?
Da calmaria, sem a tempestade?
Do alívio, sem a dor?
Da igreja, sem a decadência?
Da abstinência, sem a compulsão?
Do silêncio, sem o uivo?
Do perdão, sem o insulto?
Do céu, sem o chão?
Do brilhante, sem o opaco?
Do sensato, sem o louco?
Do caramelo, sem o limão?
Da empolgação, sem o tédio?
Do bendito, sem o maldito?
Do amor, sem a indiferença?
Do sublime, sem o profano?

O que seria do protagonista sem o seu antagonista?

17 fevereiro 2017

Motivos para ficar feliz já

Assisti a um filme chamado “Todas as coisas que brilham”, que conta a história do filho de uma suicida que elabora uma lista com motivos que mostram para sua mãe que a vida é bonita, e vale a pena.
A lista é incrível porque é repleta de itens simples, acessíveis, possíveis. O que me colocou a pensar sobre o tanto de razões que temos para ficar alegres, apesar de tudo. Acabamos tão focados no que está errado, e no que deveria mudar, que não reparamos no quanto a vida nos oferece, todos os dias, através de pequeninas situações.
Alguém já disse que a felicidade real é homeopática. Do mesmo jeito que a tristeza nasce das minúsculas agulhadas do cotidiano – que terminam se transformando em uma ferida enorme e bizarra – a felicidade também nasce dos minúsculos agrados da vida, que afagam e aconchegam, embora a gente não os valorize devidamente.
Rompantes de alegria extrema são legais, mas não garantem uma vida realmente feliz. Contudo, o cara que é capaz de perceber as sutis oferendas gentis do dia a dia, esse cara provavelmente é feliz.
Como eu posso me fazer alegre hoje, agora, neste exato momento?
Eu consigo pensar rapidamente em pelo menos oito coisas recentes que me fizeram sentir-se feliz: um tapete na porta de uma casa escrito “trouxe cerveja?”. Pizza de calabresa com queijo extra. Ler um trecho de um livro do Fausto Wolff em voz alta. Amy Winehouse. Papel de parede listrado. Sábado chuvoso. Estreia de temporada da série favorita. Um bando de passarinhos comendo um pão que alguém jogou na calçada – não sobrou um farelo.
Poderia continuar. Lembrei de várias outras enquanto escrevia sobre estas. E certamente você também se lembrará, se parar para pensar.
Por cinco minutos que seja, ou o tempo de escrever em um papel, liste três coisas bacanas que aconteceram nos últimos três dias. Só não seja tão exigente: não pense em grandes feitos, como encontrar o amor de sua vida, ganhar na loteria ou ir para a Europa. Lembre-se: a felicidade real é homeopática.
Ser feliz é entender que, em se tratando de ser feliz, tamanho não é documento.
Afinal, quem já encontrou a felicidade não a encontrou: a reconheceu.


13 fevereiro 2017

“Você não pode fazer só o que gosta”.

Talvez esta seja uma das primeiras lições que aprendemos, quando, ainda crianças, não queremos tomar remédio ou ir pra escola.
E é verdade: não podemos fazer só o que gostamos.
No entanto, o que não nos ensinaram, talvez por conveniência, é que tampouco podemos fazer só o que NÃO gostamos.
Quanto tempo do seu dia você passa fazendo o que não gosta?

10 fevereiro 2017

03 fevereiro 2017

O nome dele é João

Pouco mais de 24 horas depois de escrever o texto “A Inútil Luta com os Galhos”, que publiquei neste blog dia 30 de janeiro, abordando a grave questão da violência em Carazinho/RS, acordei às 3 horas da manhã com um policial no meio da minha sala.
Ladrões haviam arrombado a porta da garagem (que é de ferro, elétrica), e levaram o rádio do carro, dois botijões de gás e algumas ferramentas.
Este é o segundo assalto que sofremos aqui. A primeira vez, em 2009, o cara pulou um muro de quase três metros, escalou uma parede e entrou pela janela. Às cinco da tarde, enquanto a gente tomava chimarrão na sala. Quando voltamos para o quarto, dois notebooks haviam desaparecido.
Por isso adotamos dois cachorros, reforçamos as fechaduras, colocamos cerca elétrica.
Não demorou e descobrimos que este primeiro ladrão, que aqui chamaremos de João, era um jovem de 19 anos que tinha nada mais, nada menos, do que 56 PASSAGENS PELA POLÍCIA. Usuário de drogas, ladrão, traficante, desajustado, etc. Ele foi assassinado alguns meses depois do assalto, possivelmente em um acerto de contas com outro criminoso.
– Ufa, que bom, bandido tem que morrer mesmo, é um favor pra sociedade, chega a dar um alívio e...
OPS! Só que não, né?
Porque, enquanto João era assassinado, outros 50 Joãos eram gerados, e a prova é que, cá estamos outra vez, quase oito anos depois: apesar dos cachorros, da cerca elétrica e das fechaduras reforçadas. Novamente assaltados dentro de casa.
Agora, vamos fazer o que faz quem se sente acuado: mais cachorros, mais cercas elétricas, mais fechaduras e cadeados.
Afinal, é possível que aconteça um terceiro assalto. Não só é possível, como é provável. O bandido estoura a porta da nossa casa, a polícia estoura a porta da casa do bandido, e neste ciclo sem fim vamos podando os galhos e fortalecendo a árvore da violência, engolindo seus frutos podres e nos aprisionando em nossas próprias residências.
Sou capaz de apostar que, em 2009, na época em que João roubava nossos notebooks e era assassinado, os caras que assaltaram nossa casa nesta semana eram crianças. Molequinhos jogando bola no terreno baldio e pedindo moeda na saída do mercado. Pequeninos que até nos comovem, apesar de não despertarem em nós mais do que alguns segundos de consternação e empatia.
Assim como aconteceu com João, muito em breve estes caras acabarão presos, e depois mortos, e isso é tão certo quanto um terceiro assalto.
E quando isso ocorrer, vamos pensar o quê?  
– Ufa, que bom, bandido tem que morrer mesmo, é um favor pra sociedade, chega a dar um alívio e...
Só que, desta vez, eu não quero ver o bandido morto.
Em 2009, confesso, eu quis. Blasfemei loucamente, disse horrores, fiquei puta dentro das calças, quase explodi minha cabeça de tanta raiva.
Mas desta vez, não. Pois, nestes oito anos que separam o primeiro do segundo assalto, eu consegui entender que matar o bandido não encerra a violência.
Porque os caras que vão assaltar nossa casa amanhã são os molequinhos que hoje jogam bola no terreno baldio e pedem moeda na saída do mercado.
O nome deles é João. :( 

30 janeiro 2017

A inútil luta com os galhos

Era sexta-feira, outubro de 2016.
Eu acordei com barulho de sirenes e um helicóptero voando baixo. Estranhei, já que moro em Carazinho, cidade pequena de 60 mil habitantes encravada no norte do Rio Grande do Sul, e não é todo dia que ouvimos sirenes e helicópteros voando baixo.
Levantei, e não demorei a descobrir do que se tratava: era a Operação Avalanche. Um efetivo com mais de 350 policiais baixou em Carazinho naquela manhã, com o objetivo de cumprir cerca de 100 mandados judiciais envolvendo tráfico e homicídio. A cidade foi, literalmente, sitiada. Havia policiais em todas as saídas, monitoramento nas ruas e, claro, sirenes e helicópteros voando baixo.
No final do dia, 36 pessoas haviam sido presas, e a população carazinhense estava eufórica. Não por acaso, já que a violência em nossa cidade cresce a cada ano que passa. Em 2013 foram 7 assassinatos. Em 2016, 31. Em 2017, até o dia 28 de janeiro, cinco pessoas já haviam sido mortas, incluindo um taxista muito querido pela comunidade, de 70 anos.
Logo, policiais derrubando portas e prendendo bandidos era tudo o que os carazinhenses poderiam querer, certo?
Bem, não exatamente.
Porque o que acontece aqui em Carazinho é o que acontece em todo o Brasil: nós aparamos os galhos desta árvore maligna chamada violência, mas jamais arrancamos sua raiz. Raul Seixas disse: “Tem gente que passa a vida inteira travando a inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que está o curinga do baralho”. Essa gente, travando essa luta inútil, somos nós.
E por isso seguimos, dia após dia podando exaustivamente os galhos, enquanto a árvore continua a produzir mais e mais galhos.
É preciso prender os bandidos? Ora, mas é claro que sim! Quem comete um crime precisa pagar, e isso não se discute, porque é óbvio; é lei. No entanto, SÓ prender bandidos não adianta, se seguimos sendo uma sociedade que produz bandidos em escala industrial.
Além de policiamento, reforma carcerária e punição aos criminosos – que são necessidades urgentes, para curto prazo – é preciso criar alternativas para que, daqui cinco, dez, vinte anos, possamos formar mais estudantes do que bandidos. E para tanto, só prender não basta.
A prova é que, pouco mais de três meses depois da Operação Avalanche, efetivamente nada mudou. Foi um dia de bastante espetáculo e pirotecnia, com todas aquelas sirenes e helicópteros voando baixo, mas no fim da noite os 350 policiais foram embora, e tudo seguiu como sempre foi.
E é isso que precisamos entender, enquanto carazinhenses, enquanto brasileiros: do jeito que estamos fazendo, meus amigos, está dando errado. Muito errado. Se não paramos de produzir criminosos, cada vez que prendemos um aparecem cinco para ocupar o seu lugar. Quanto mais podamos os galhos, mais forte e saudável a árvore fica, e seus frutos intoxicados acabaremos engolindo, cedo ou tarde.
Então, vamos pedir mais policiamento nas ruas, mas vamos pedir também melhorias nas escolas, para que os pequeninos de hoje não apontem uma arma pra nossa cabeça (ou a do nosso filho) amanhã.
Que venha o policiamento, mas que venham também empresas capazes de gerar emprego, renda e oportunidade.
Que não falte justiça para as vítimas, mas que também não falte arte, educação e cultura para quem não tem.
Vamos construir presídios, mas também vamos construir escolas, núcleos profissionalizantes, creches, bibliotecas, áreas de lazer.
Vamos limpar as ruas da criminalidade, mas vamos também limpar as praças dos bairros, que estão viradas em uma macega.
Vamos prender os bandidos, mas vamos também impedir que eles se criem.
E isso se faz não somente remediando, mas prevenindo.
Vocês não estão cansados de passar a vida inteira travando essa inútil luta com os galhos?
Eu estou.


26 janeiro 2017

Três semanas.

Foi o tempo que durou a reforma que realizamos aqui no porão – e que, agora, se chama “andar térreo”, e não mais “porão”, haha.
O fato é que, durante três semanas, não consegui sequer chegar até o escritório onde funciona a Editora Os Dez Melhores, já que a editora fica no porão. Ou melhor, no andar térreo.
Foram três semanas imersa em poeira, entulhos e barulho. Muito, muito, muito barulho (vizinhos, nos desculpem, nós amamos vocês!). Três semanas acessando a internet somente do celular (habilidade: zero); três semanas sem responder e-mails, mensagens, sem nem curtir o post do amigo. Até voltei a escrever em um caderninho, pra não perder o fio da meada.
Três longas semanas vivendo em suspensão, totalmente fora da rotina, sem muitas das referências habituais do cotidiano. O que serviu para relembrar o quanto é maluco ser subitamente arrancada da normalidade do dia a dia, seja pelo motivo que for. Como o nosso corpo reage de modo estranho e inesperado quando saímos fora do padrão de vida que costumamos levar.
Uma experiência interessante, rica e etc., mas que, sinceramente, não pretendo repetir tão cedo.
Porque, sabe, eu amo a rotina.
Eu saio correndo desesperadamente atrás dela toda vez que ela me escapa. A rotina mantém, com eficiência, minha sanidade mental, e por isso eu costumo amá-la e preservá-la com dedicação, carinho e cronogramas de trabalho, haha.
Seja bem-vinda de volta, querida rotina!
Três semanas sem você é tempo demais para minha mente em desalinho!