27 abril 2017

O que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?

Esta é uma pergunta que deveríamos nos fazer, ao invés de apenas criticar e debochar de uma situação que é, no mínimo, bizarra: crianças e adolescentes mutilando-se e suicidando-se enquanto seus pais dormem tranquilamente no quarto ao lado. 
Nestes últimos dias, vi muitas piadas sobre o jogo Baleia Azul. Também li comentários indignados, chamando estes jovens de burros, bestas, desocupados. “Falta de louça pra lavar”. “Vão capinar um terreno baldio”. “Tem que dar umas bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Porém, eu desconfio que o buraco é mais embaixo. Afinal, me parece óbvio que este jogo é mais uma consequência; não é a causa do problema.
Estamos acostumados a focar na sequela, não na origem do mal. Brigamos com os galhos, sempre ignorando o tronco e a raiz. Apenas reagimos e remediamos, nunca prevenimos.
Por isso, é preciso encontrar os criminosos por trás deste jogo, e puni-los severamente. Também é imprescindível promover campanhas para proteger a gurizada. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar: o que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?
Nós, sociedade. Nós, humanidade. Nós, seres humanos. O que estamos fazendo de tão errado, para produzirmos tantos jovens emocionalmente desequilibrados, capazes de matar e morrer por um jogo sem sentido?
Os índices de suicídio, em todo o globo terrestre, são alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos – uma a cada 40 segundos. Isto significa que, enquanto você lê este texto, pelo menos dez pessoas tirarão a própria vida. A taxa de suicídio entre jovens, então, é inaceitável. Trata-se da segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, perdendo apenas para acidentes de trânsito. Tem mais: o suicídio entre crianças de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos, e 33% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Neste cenário desolador, um jogo como o Baleia Azul prosperar não é nada tão impressionante, convenhamos.
Mas por que nossos jovens se suicidam? Por que eles preferem morrer, ao invés de fazer planos para o futuro? Por que eles não vislumbram o futuro?
Não encontramos as respostas certas porque fazemos as perguntas erradas. E a prova está na reação que muitas pessoas tiveram ao jogo Baleia Azul: “louça pra lavar”, “capinar terreno baldio”, “bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Estes somos nós: inventando soluções simplórias para problemas complexos, como se tudo fosse pá e pum, assim ou assado, preto ou branco, prático, objetivo, superficial, tão simples.
Não, nada é assim tão simples. Se até as bactérias são complexas, amigo, imagina o ser humano! E é justamente por que ignoramos esta complexidade que somos uma sociedade tão doente – que, naturalmente, produz crianças e adolescentes doentes.
A nossa reação ao jogo Baleia Azul mostra por que o jogo Baleia Azul existe.
Afinal, nós realmente acreditamos que as pessoas se suicidam porque não têm louça pra lavar. Afirmamos categoricamente que “umas bofetadas na cara” podem tirar alguém da depressão. Ao invés de acolher o doente, nós queremos que ele vá capinar um terreno baldio.
Não queremos nem saber que 90% dos suicidas sofrem de algum transtorno mental, sendo a depressão o principal deles. Depressão esta que acomete um número cada vez maior de pessoas, e segundo a OMS, aumentou em 18% entre 2005 e 2015, sendo a principal causa de incapacidade laboral no planeta. A estimativa é que, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofram com a doença no mundo.
Ignoramos todos estes dados. Tratamos a doença como “frescura” e o doente como “folgado”, e depois ainda nos perguntamos, muito confusos: como chegamos até aqui?
O jogo Baleia Azul é perturbador de muitas formas. Mas talvez sua face mais sinistra e sombria seja aquela que reflete a nossa própria face. Porque nós, sociedade, também jogamos um jogo doentio. E perdemos sempre. 

21 abril 2017

Dizem que um livro termina de ser escrito pelo leitor.

Afinal, é o leitor quem interpreta e reinterpreta a obra; quem dá sentido, fundamento e significado ao que foi escrito. Um livro sem leitor é um livro inacabado, incompleto. E se assim for, posso garantir que O Duplo da Terra, meu terceiro livro, terminou de ser escrito ontem – e com maestria.
Porque até agora eu não consegui encontrar palavras no dicionário para explicar a enorme emoção que foi participar do Dia Literário do Instituto Educacional Girassol, ontem de manhã.
Os alunos leram O Duplo da Terra, e fizeram cartazes, textos, montagens, colagens, desenhos, e até um teatro lindo sobre a obra.
Foram tantos trabalhos magníficos, e minha emoção era tamanha, que todas as fotos que eu tirei (e foram quase 40) saíram tremidas. Só deu para salvar esta, que eu publico abaixo – e que dá uma boa prévia de tudo o que eu vi e vivi ontem.
Para minha sorte, a escola tirou um monte de fotos também, e assim que as divulgarem, eu divulgo aqui. Porque SÓ VENDO para vocês entenderem do que eu estou falando.
Além dos trabalhos da gurizada, eu também ministrei uma palestra chamada “Encaixotando o Problema”, e depois ficamos ali, trocando mil ideias.
Falamos de literatura, do jogo Baleia Azul e do jogo Baleia Rosa, de feminismo, de vida após a morte, de alienígenas, de privilégios, de sereias, da violência contra a mulher, de doenças físicas e emocionais, de gatos, de digestão mental, e de tudo o mais que vocês puderem imaginar!
Foi sensacional! Entrei na escola às 8h da manhã e saí só ao meio-dia, coberta de amor da cabeça aos pés.
Obrigada, alunos!
Obrigada, Instituto Educacional Girassol.
Obrigada professores, funcionários, direção.
Do mesmo jeito que me faltam palavras para definir a enorme emoção que foi o dia de ontem, me faltam palavras para agradecer.
Obrigada por concederem tanto sentido, fundamento e significado ao meu livro.
Obrigada por terminarem de escrever O Duplo da Terra com tanta beleza, leveza e capricho.
Nunca vou me esquecer do dia 20 de abril de 2017. Nunca!



19 abril 2017

Rebelem-se, garotas!

Eu cresci lendo revistas adolescentes que ensinavam qual maquiagem os meninos gostavam, e qual não gostavam. Revistas e programas de TV que diziam como deveríamos nos comportar, como deveríamos nos vestir, como deveríamos pensar para nos encaixar. As regras eram duras: era preciso ser magra. Ter o cabelo liso, longo, sem volume nem frizz. Ser gentil, doce, meiga e agradável. Não “ser puta”. Não falar alto. Não sentar de pernas abertas. Ser inteligente, mas não muito, para “não assustar os homens”.
Estas revistas ensinavam que nós, garotas, precisávamos nos adaptar, nos modificar – nos mutilar, se preciso fosse! – para sermos aceitas. Para sermos consideradas bonitas. Para fazermos parte. Para existirmos.
E assim eu cresci: alisando meu cabelo crespo, volumoso e com frizz; fazendo dietas malucas; usando camiseta sobre o biquíni; escondendo meu corpo. Odiando-me dia sim e outro também. Tentando desesperadamente ser acolhida pelos padrões. Tentando desesperadamente me ajustar naquilo que os outros – mídia, sociedade, homens – esperavam de mim.
No entanto, num belo dia eu me dei conta de que não precisava me encaixar porra nenhuma. Que estas regras eram cruéis e covardes, além de impossíveis, e me colocavam em guerra com a única pessoa que eu deveria realmente agradar, amar, respeitar e me importar: eu mesma.
Odiar meu corpo, meu rosto, meu cabelo, era justamente o objetivo desta mídia, desta sociedade e desta indústria de beleza doentias, cuja intenção sempre foi fazer eu me sentir mal por ser quem eu era – para que, assim, pudesse gastar rios de dinheiro alisando o cabelo, comprando shakes e remédios emagrecedores, fazendo academia, fazendo plásticas, fazendo compras.
Este sistema desumano e sádico lucra, e muito, com a insatisfação e a infelicidade das mulheres e, através de suas regras bizarras, nos mantêm loucas e domesticadas.
Naomi Wolf, escritora americana, escreveu:
“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão com a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”.
Um fato.
Os padrões de beleza e comportamento impostos às mulheres não são referentes ao nosso cabelo, nossa roupa, nosso corpo e nossa forma de agir. São referentes à nossa cidadania. Trata-se de um projeto social e político, cujo objetivo é nos conservar permanentemente tristes, desconfortáveis, malucas e caladas, exclusivamente focadas em nos adaptar; em sermos aceitas por ser alguém que não somos. Nem que para isso seja necessário gastar todo nosso dinheiro, nossa saúde, nossa alegria e nossa sanidade mental.
E em um mundo que trabalha arduamente para que a gente odeie nossa própria aparência, se amar, se respeitar, se achar bonita – mesmo que totalmente fora destas regras e destes padrões medonhos – é, sim, um ato de rebeldia.
Então eu convido você, minha querida leitora, a rebelar-se.
Afinal, nem você, nem eu, e nem nenhuma de nós precisa fazer parte deste jogo de cartas marcadas, onde nós, garotas, vamos perder sempre. Não importa o quanto a gente se esforce.
Por isso eu digo ao sistema, à mídia, às revistas, aos homens, à sociedade: tirem suas mãos de mim! De mim, do meu corpo, do meu cabelo, do meu jeito de ser!
Porque eu aprendi a me amar, e uma mulher capaz de se amar é uma mulher capaz de fazer qualquer coisa.

10 abril 2017

Você não precisa ser mãe.

Não, amiga, você não precisa. Se quiser, pode ser, mas esta não é uma obrigação. A sua existência, a sua realização e a sua felicidade talvez não passem pela maternidade.
Já pensou nisso? Eu já.
Em 2015 fiz 30 anos, e passei a cogitar a ideia de ter um filho. Parecia-me a lógica, o caminho natural – quiçá o único caminho. As pessoas já me alertavam, preocupadíssimas: “Olha a idade, Janaína”. “Depois dos 35 fica mais difícil”. “Quem vai cuidar de você na velhice?”. Então eu fiz o que muitas mulheres fazem, e parei de tomar a pílula.
No instante em que parei, comecei a imaginar como seria a minha vida com um filho. Se eu estava tomando uma cerveja com minhas amigas, me vinha o pensamento: e se eu tivesse um filho, será que estaria aqui? Quando estava assistindo minhas séries favoritas, jogada no sofá, descabelada e de pijama, lá vinha a pergunta: e se tivesse um bebê aqui, eu estaria assim, tão de boas? Quando dormia até 10h da manhã no domingo, quando me arrumava para uma festa, enquanto escrevia meu livro durante os feriados e finais de semana, ou quando fazia compras no supermercado, o tal questionamento não saía da minha cabeça: e se?
Foi então que eu descobri que, ao contrário do que eu imaginava, eu não queria ser mãe coisa nenhuma. Não estava nem um pouco preparada para abrir mão da minha vida, dos meus projetos e da minha (falta de) rotina por conta de uma criança. E quatro meses após suspender a pílula, saí correndo para a farmácia comprar meu anticoncepcional.
As pessoas, então, decidiram que julgar a minha decisão era uma boa ideia: “Egoísta!”. “Só pensa em si mesma!”. “Você vai se arrepender”.
Bem, na verdade não. 
E mesmo que me arrependesse, prefiro me arrepender por não ter tido um filho, do que me arrepender por ter tido – afinal, uma criança é um ser humano, e depois que ela nasce, não há mais como voltar atrás. É justamente por que não sou egoísta, e penso neste filho hipotético, que decidi não tê-lo.
Então, minha amiga, nunca se esqueça: você não precisa ser mãe. Você não precisa fazer o que estas mil vozes te mandam fazer. O corpo é seu, o útero é seu e, principalmente, a vida é sua. Você decide. Só você, e mais ninguém.
Porque depois que o bebê nascer, durante as madrugadas frias de choro e cólica, ou quando faltar dinheiro e resignação, e sobrar cansaço e preocupação, estas pessoas que gostam tanto de te dizer como, quando e o que você deve fazer, não estarão ao seu lado para lhe dar apoio algum.
Pelo contrário. Elas virão novamente com seus dedos em riste, agora dizendo que você é uma péssima mãe; que não se preocupa com seu filho; que não tem paciência; que é uma desnaturada e usa saia curta, onde já se viu? “Pobre desta criança”.
E antes de encerrar, quero deixar claro que eu não sou contra a maternidade. Eu sou contra esta imposição social, que diz que uma mulher só é completa e feliz se for mãe.
Maternidade é escolha. Não é obrigação.

05 abril 2017

250 mil

Uma das primeiras lições que aprendemos na faculdade de Publicidade e Propaganda, na qual sou formada, é que não adianta o anúncio prometer o que o anunciante não pode cumprir.
Então, se o anunciante diz que sua loja tem o melhor atendimento da cidade, mas sua loja não tem o melhor atendimento da cidade, não há nada que a agência de publicidade possa fazer. Porque contra fatos não há argumentos. O cliente até pode ir à loja, mas ao perceber que a propaganda mentiu, ele simplesmente irá embora, para nunca mais voltar.
Isso se não ocorrer o efeito “tiro no pé”. Como já definiu William Bernbach: “Uma boa campanha publicitária fará um mau produto fracassar mais rapidamente, pois ela conseguirá que mais pessoas descubram o quanto ele é ruim”.
Deste modo, o dono da loja seria mais honesto, sensato e inteligente se, ao invés de investir em publicidade para dizer que é o que não é, utilizasse este investimento para realmente se tornar o que afirma ser. No caso deste exemplo, promover a capacitação de seus funcionários para melhor atender seu público. Assim, poderia de fato oferecer o melhor atendimento da cidade, ao invés de usar a publicidade para dizer que oferece o que não oferece.
Pois bem.
A Câmara de Vereadores de Carazinho, que segue entre as dez que mais gastam em diária no estado, aprovou na noite da última segunda-feira, por sete votos a cinco, que 250 mil reais (que seriam utilizados para a construção de uma nova célula no aterro sanitário) sejam destinados para publicidade, com a justificativa de “divulgar o município” e “atrair investimentos”.
Ok. Eu, como publicitária, obviamente conheço e reconheço a importância da publicidade; ela continua sendo a alma (e a arma) de qualquer negócio. Contudo, como publicitária também sei que nenhuma propaganda é capaz de ser maior do que a realidade.
E a realidade é a seguinte: Carazinho tá na pior, e não é de hoje.
Desemprego, índices de criminalidade alarmantes, pouco policiamento, escolas sucateadas, bairros abandonados, ruas esburacadas, calçadas imundas, saúde caótica, empresas fechando as portas.
Neste cenário desolador, eu pergunto: propaganda pra quê? Pra quem? Pra dizer o quê? Sobre o quê?
Não consigo compreender de que maneira investir 250 mil reais em publicidade pode beneficiar os carazinhenses neste momento, ou como pode colaborar para resolver alguns, dos vários problemas que judiam de nossa cidade.
Se o dono da loja quer investir seu dinheiro em publicidade para dizer que é o que não é, por mim tudo bem. O dinheiro é dele, e se ele quiser desperdiçá-lo em propaganda enganosa, que seja feita a sua vontade.
Mas estes 250 mil são dinheiro público! É meu, é seu, é nosso! E o povo foi contra. Não queria destinar 250 mil do seu suado dinheirinho para propaganda. Tanto, que lotou a Câmara de Vereadores pedindo que o projeto não fosse aprovado – e como geralmente acontece, foi sumariamente ignorado. Houve um vereador que até boca bateu com um cidadão que lá se encontrava.
É revoltante.
Revolta ver a maneira como nossos governantes e representantes tratam nosso dinheiro; como ignoram nossos desejos e necessidades; como utilizam o cargo para o qual foram eleitos para se promover, e só.
Ademais, em uma situação de crise generalizada como a que vivemos hoje – não só em Carazinho, mas em todo o Brasil – é redondamente estúpido investir tanto em propaganda. Apesar de ser publicitária, tenho consciência de que publicidade é supérfluo. Qualquer empresário meia-boca sabe que, na crise, corta-se o dispensável.
E uma cidade pode viver sem publicidade; mas não sem segurança, sem saúde, sem educação.   
Talvez alguns dirão que os muitos problemas de Carazinho não são responsabilidade da atual gestão, que entrou em janeiro deste ano, e mal teve tempo para fazer qualquer coisa pela cidade.
Concordo.
Mas justamente por que mal tiveram tempo de fazer qualquer coisa pela cidade, eu repito minha pergunta: querem anunciar o quê? Pra quem? Pra dizer o quê? Sobre o quê?
Tal e qual acontece com o dono da loja, seria mais honesto, sensato e inteligente se o governo de Carazinho, ao invés de investir em publicidade para dizer que é o que não é, utilizasse este investimento para realmente se tornar o que afirma ser.
Pois, como já disse um cara chamado Benjamin Franklin: “Bem feito é melhor que bem dito”.

29 março 2017

Direitos Humanos e Humanos Direitos

Uma das frases mais repetidas por quem acredita que bandido bom é bandido morto é a famigerada: “Direitos humanos são para humanos direitos”. Uma citação cujo significado é: se você for um cidadão de bem, merece ter seus direitos preservados. Se não, não.
Contudo, há um erro básico de interpretação de texto cometido pelas pessoas que acreditam nesta frase-pronta. Porque direitos humanos são para humanos. Sejam estes humanos do bem ou do mal, direitos ou tortos, certos ou errados. Então, a não ser que você seja um cachorro, uma bactéria ou uma almofada, você tem direito aos direitos humanos.
Outro erro elementar é vir falar de direitos humanos e humanos direitos somente em situações onde o humano em questão está errado.
O sujeito assaltou um mercadinho e deu uma coronhada no balconista? Não é um humano direito. Logo, não merece direitos humanos.
Acontece que, para um ser humano se tornar direito, ele precisa que seus direitos sejam respeitados desde o princípio. E quais são seus direitos? Ora, está lá na Constituição: acesso à educação, saúde, lazer, emprego, saneamento básico, segurança, moradia. 
Mas aí a criança nasce no barraco sem que sua mãe tenha tido sequer assistência pré-natal. Quando fica doente, por conta do esgoto que desemboca na porta de sua casa, esta criança não vai ao médico, que é longe, inacessível, e cujo atendimento pode demorar meses. A pracinha na frente da casa desta criança está demolida, os brinquedos, enferrujados, as calçadas, imundas; virou ponto de tráfico. A escola onde esta criança deveria estudar vive em greve, e quando não está em greve, segue sucateada: professores desmotivados, janelas e cadeiras quebradas.
E enquanto tudo isso acontece, eu pergunto: onde estão os humanos direitos? Onde estamos nós, “cidadãos de bem”, que ignoramos sumariamente os direitos e a vida desamparada desta criança?
Eu mesma respondo: enquanto tudo isso acontece, os humanos direitos estão tocando suas vidas, como se nada estivesse acontecendo.
Então, quando esta criança cresce, assalta o mercadinho, e dá uma coronhada no balconista, os humanos direitos saem de suas tocas, histéricos, bradando que direitos humanos são somente para humanos direitos.
Permitimos, enquanto sociedade, que esta criança cresça sem acesso a nenhum de seus direitos constitucionais mais básicos; totalmente abandonada à própria sorte. E depois que o mal já está feito; que o crime já foi cometido; viemos falar que este assaltante, ontem criança, não tem direito aos direitos humanos.
Amigos, ele nunca teve direito aos seus direitos. E justamente por isso assaltou o mercadinho e deu uma coronhada no balconista.
Por isso, vamos parar de repetir frases-prontas, tão profundas quanto um copo de água, e avaliar melhor nossas palavras, e nossa postura enquanto cidadão de um país que não respeita sua própria Constituição.
Porque no dia em que os direitos humanos forem para todos, do berço ao caixão, certamente teremos mais, muito mais humanos direitos.

13 março 2017

Obscena

Quantos artistas você conhece em Carazinho e região?
Com certeza menos do que gostaria, deveria, poderia e precisaria.
Porque a cena cultural de nossa cidade vai muito além dos artistas que estão sob holofotes. Existe uma cena contracultural que não está no centro, e nem nos jornais e revistas, e muitíssimo menos nos calendários oficiais do município. Uma cena que não está sob holofotes, mas que nem por isso deixa de existir.
Muito pelo contrário.
Por isso nós, da editora carazinhense Os Dez Melhores, ficamos felizes em anunciar o início do projeto editorial da revista Obscena – Observe a cena underground, uma publicação que buscará reunir os artistas independentes de Carazinho e região que não encontram espaço entre as estruturas tradicionais para divulgar e promover sua arte. Artistas do underground, no sentido literal da palavra.
A Obscena convida o leitor a olhar para o lado, e conhecer uma cidade cultural inteira, que existe, pulsa, e está bem embaixo dos nossos narizes, apesar da gente simplesmente não ver.
Observe a cena underground de sua cidade, e permita surpreender-se.


10 março 2017

10 anos para um homem de 80 é pouco mais de 10% de sua vida.

10 anos para uma criança de 10 é 100% de sua vida.
10 anos para um cachorro é muito; para uma tartaruga, pouco.
Para o calendário, uma década. Para a História, uma minúscula partícula de tempo.
10 anos, pra quem chora, é uma eternidade; pra quem ri, passa voando.
Pra mim, 10 anos são mais ou menos 33% da minha vida. Bastante tempo, convenhamos. E nesta semana, mais precisamente no emblemático dia 8 de março, completou-se 10 anos de um acontecimento que mudou o rumo de tudo por aqui.
Dia 8 de março fez 10 anos que eu e o Cavanhas decidimos subir no mesmo lado do ring e lutar juntos; abrir os atalhos em parceria, aguentar os trancos se apoiando um no outro, nadar contra a maré na mesma direção. Duas cabeças pensam melhor que uma, e quatro mãos são mais eficientes que duas.
E apesar de 10 anos representarem um terço da minha vida, posso dizer que não vi esse tempo todo passar. E não vi, porque foram 10 anos de mansidão e quietude – embora o ring, as lutas, os trancos e a maré.
Nunca vou esquecer. Na primeira vez que saímos juntos, o Cavanhas citou uma frase de Pierre-Joseph Proudhon, dizendo ser seu mantra:
“Aquele que colocar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”.
Lembro de ter pensado na ocasião: será?
Será que esse cara não está fazendo um tipo?
Será que não está tentando posar de legalzão, e daqui a pouco vai encher o meu saco porque coloquei uma saia ou cumprimentei um amigo, como todos antes dele fizeram?
Será que ele tem consciência de que, se eu não posso colocar minhas mãos sobre ele para governá-lo, ele também não pode colocar suas mãos sobre mim para me governar?
Por que, olha: eu nunca acreditei no conceito de relacionamento que vigora por aí. Sempre achei meio absurda a ideia de que casar é como ir pra cadeia ou para o matadouro, ou como ser contido, proibido, capturado, amordaçado, enlaçado. Relações baseadas em autoridade, onde um manda e o outro obedece, onde um fisga enquanto o outro é fisgado, nunca me pareceram inteligentes, e muito menos divertidas.
De ciúme então, nunca entendi, e tive de fato problemas com ex-namorados, que faziam beiço e reclamavam que eu não os amava porque não tinha ciúme.
“Como assim?”, eu pensava injuriada. Era justamente por que eu gostava – e consequentemente confiava e respeitava seus espaços – que eu não tinha ciúme.  
Eles nunca entenderam porra nenhuma do que eu dizia, e eu conjecturava com meus botões: fodam-se então.
Não vim ao mundo pra usar cabresto, e se era para viver como um cachorro amarrado no poste, a coleira curta que não alcança nem o portão, tendo de dar satisfações sobre tudo o que eu faço e penso e visto e sinto – regalia que não concedo nem para o meu pai, que trocou minhas fraldas sujas, me alimentou, me aguentou na adolescência, e até pagou minha faculdade – então que eu fique só. Melhor só, do que acompanhada por alguém que não acredita em mim.
Logo, conhecer o Cavanhas, com todo aquele papo libertário, realmente me encafifou. Em um mundo onde o ciúme é tratado como prova de amor, só podia ser pegadinha do Faustão.
Mas não era.
Não é.
10 anos transcorreram, e em nenhum destes 3.650 dias duvidamos da palavra um do outro.
Contudo, não se iluda, amigo leitor, pensando que somos almas gêmeas, porque não somos, assim como não nos completamos, porque sempre fomos inteiros. Apenas resolvemos que seria uma boa ideia ir junto, ao invés de separados.
Sei que sou sortuda por encontrar alguém que vê o amor como eu: com respeito à individualidade do outro, e a todo seu universo particular gigante e complexo. Sou sortuda por encontrar alguém que precisa de liberdade mais até do que precisa de ar, de água, de pão, de amor. Tal e qual eu.
Alguém que sabe que não se pode ser feliz sem ser livre. Não se pode ser feliz quando alguém coloca as mãos sobre você, e tenta lhe governar. Afinal, quem faz isso é um ditador, um tirano, e devemos declará-lo nosso inimigo.
10 anos ao lado de um inimigo deve ser tempo pra caramba.
Mas 10 anos ao lado de um amigo, de um cúmplice, de um aliado, passa voando.
Por isso eu sei que, daqui 10 anos, vou escrever um novo texto, contando sobre como metade da minha vida passou sem que eu pudesse sequer perceber. 

2007.


03 março 2017

Queria

Queria ter uma religião e acreditar em santos e livros sagrados.
Queria um símbolo para idolatrar, um partido para me filiar, uma sigla para vestir, uma bandeira para hastear no quintal.
Queria falar da novela, odiar o vilão, torcer entusiasticamente pelo mocinho.
Queria ter fé no amor romântico, e nas palavras do Papa.
Queria uma ideologia pela qual morrer, e queria ter certeza pelo que morreria.
Eu queria acreditar no que diz a TV, o jornal, a previsão do tempo, a bula do remédio.
Queria confiar que o colete salva-vidas pode realmente evitar que a gente afunde.
Queria tomar banho de sol no verão sem medo de me queimar.
Queria dividir o mundo em rótulos, classificar pessoas e sentimentos em ordem alfabética; ignorar o início e o meio, me focar só nos fins. Queria ter respostas para todas as perguntas, e publicá-las na internet.
Queria acreditar no médico e no astrólogo.
Eu queria o preto ou o branco, a esquerda ou a direita, aqui ou aí, do meu lado ou contra mim.
Queria fazer listas de compras e de resoluções de ano novo, e me cadastrar em promoções, instituições, premiações, congregações, associações, fundações.
Queria respeitar e temer a autoridade.
Queria chamar meu cachorro de filho, e queria ter filhos para chamá-los de príncipe e princesa e pequeninos de mamãe.
Queria confiar na lei, na justiça, no político, na polícia, no segurança do shopping. E crer em fórmulas mágicas, receitas prontas, pague e pegue, pague e leve, pague e suma.
Queria participar de reuniões e acreditar em reuniões e agendar reuniões e me esbaldar com reuniões.
Queria ser enganada e feliz.
Queria jogar o jogo, e entender suas regras. Mover as peças com destreza, ser movida sem culpa e sem objetivos, somente uma peça no tabuleiro.
Queria pagar em dia as 10 prestações sem juros, trocar o sofá de lugar, mudar a cor da parede, o corte do cabelo, acreditar que isso é o suficiente.
Queria comer grãos integrais, proteínas e batata-doce, e prestar continência, dizer amém, sim senhor, com certeza. Eu concordo.
Queria entender de ciúme e patriotismo, e sentir medo de falar alto, medo de fazer perguntas muito difíceis, medo de não ser convidada, medo de parecer burra ou inteligente demais, medo de ter medo, medo só de falar!
Queria saber implorar, e conversar manso e baixinho para não incomodar quem está dormindo.
Queria acreditar que Elvis não morreu, que a guerra faz sentido, que a gravata não sufoca, que tudo o que eu sei é tudo o que existe no universo.
Queria escrever uma história de amor com palavras fáceis de entender e gosto de mamão, açúcar e “viveram felizes para sempre, fim”!
Queria trocar as horas que constituem minha vida por pão e dinheiro.
Queria manter minha coluna ereta e a cabeça baixa, em sinal de obediência.
Queria rir das piadas; fazer parte do time da escola e da coluna social; deixar a TV ligada para não ver meu reflexo ali.
Queria acreditar em promessas, em propagandas, em candidatos, em vendedores de carro, em pastores e padres e líderes. Acreditar em homens engravatados, em cientistas, em livros de História. Queria crer cegamente na Lei de Talião.
Queria comprar um quadro que eu não entendo, ter coisas de que não preciso, comer uma comida que eu não gosto e sorrir.
Queria caminhar por aí como quem sabe para onde vai.

E, acima de tudo, eu queria querer tudo isso.
Mas não quero e, sinceramente, está tudo bem. ;) 

28 fevereiro 2017

O que seria?

O que seria do santo sem o pecador?
Do mocinho, sem o vilão?
Do obediente, sem o insurgente?
De deus, sem o diabo?
Do nobre, sem o vulgar?
Do sono, sem o cansaço?
Do belo, sem o feio?
Da calmaria, sem a tempestade?
Do alívio, sem a dor?
Da igreja, sem a decadência?
Da abstinência, sem a compulsão?
Do silêncio, sem o uivo?
Do perdão, sem o insulto?
Do céu, sem o chão?
Do brilhante, sem o opaco?
Do sensato, sem o louco?
Do caramelo, sem o limão?
Da empolgação, sem o tédio?
Do bendito, sem o maldito?
Do amor, sem a indiferença?
Do sublime, sem o profano?

O que seria do protagonista sem o seu antagonista?