25 julho 2017

Quem é o seu deus?

Todos os religiosos são devotos de algum deus. E independente de como cada um nomeia o seu, creio que, em um ponto, todos concordam: deus é um cara bacana. Seja lá quem for este deus, ele é do bem. Certo? Certo.
Mas se deus é legal; se ele é do lado bom da força; por que raios a maioria de seus supostos seguidores não é? Afinal, se deus é gente boa, ele não pode ser assim, tão agressivo e azedo como vocês o pintam. Se deus é pai de todos, suponho que também seja pai das travestis, das prostitutas, dos criminosos, dos umbandistas, dos ateus, dos miseráveis, dos viciados, dos gays, dos jogadores de rúgbi.
Vejam o caso de Jesus Cristo: quando ele teoricamente viveu entre nós, há mais ou menos dois mil anos, só andou com os excluídos e com os marginalizados. Não me lembro de nenhuma parte de sua história onde ele menciona curar homossexuais, linchar bandidos, ou atirar pedras em crianças com outra fé.
Então, ou deus é um sujeito preconceituoso, mal-humorado e violento, ou seus seguidores não estão entendendo da missa um terço. Fico com a segunda opção.
Porque debocha da lógica um deus que não respeita a diferença. Que não compreende o sofrimento do outro, que desconhece a empatia. Não aceito – porque minha razão não permite – um deus tão cruel, vingativo, intolerante e megalomaníaco. Neste deus, que muitos seguem, eu não acredito.
O deus que eu chamo de meu é um cara legal e pacífico. Não se importa se você é gay, crente, promíscuo, leproso, dançarino, asiático: ele te aceita, e fim. Este deus que é meu não perde tempo com picuinhas e com detalhes irrelevantes, como a sua profissão, a sua religião, a cor da sua pele, o seu desejo sexual ou a sua conta bancária. Ele quer apenas saber se você é um sujeito bacana, como ele é.
O meu deus está interessado nas tuas atitudes; em quem você é no seu dia a dia. Ele espera que você ame os outros – e se não puder amar, que ao menos os respeite. Ele fica de olho no jeito como tratamos o garçom e o porteiro e o empresário rico, e se nos importamos quando enxergamos uma pessoa dormindo na rua, seja ela criança ou não. Ele somente deseja que a gente ajude quem não pode se ajudar, e que tenhamos um pouco de decência e compaixão na forma como vemos o mundo, e o próximo.
O deus que é meu aceita a diversidade – e não só aceita, como a celebra e a admira, já que ele próprio a criou.
No entanto, para muitas pessoas, só uma fé tem valor: a sua.
Estas pessoas frequentam religiosamente templos e cultos, mas já saem da igreja falando mal do vizinho. Estas pessoas rezam o dia inteiro, mas julgam o próximo com uma severidade que não usam para julgar a si mesmas. Estas pessoas apedrejam crianças, atiram homossexuais do décimo andar, e odeiam qualquer crença ou filosofia que vá contra suas certezas miúdas e egocêntricas.
O deus destas pessoas não é o meu deus.
É o seu?


20 julho 2017

Escola Ernesta Nunes, os indivíduos e a multidão

Terça-feira foi um dia MUITO frio aqui em Carazinho, com temperaturas abaixo de zero e geada sobre carros, telhados e gramados. E apesar de estar com os pés e as mãos literalmente congelados, o coração ficou quentinho e confortável a manhã inteira.
É que eu estava na Escola Ernesta Nunes, participando da Ciranda Cultural, uma das muitas atividades que aconteceram em comemoração aos 56 lindos anos desta escola querida.
Desde que voltei a morar em Carazinho, em 2013, e desde que fundamos a Editora Os Dez Melhores, no mesmo ano, a Escola Ernesta Nunes é presença confirmada em tudo o que se refere à cultura e educação. Uma escola que não é nada acomodada, e está sempre fazendo das tripas coração para dar aos seus alunos não apenas uma educação formal e padrão, mas humana e libertadora, para além das paredes da sala de aula.
Foi uma manhã bela de sol e frio, onde pude ver e comprovar mais uma vez o quanto cada um de nós pode fazer a diferença nesse mundão de meu deus.
A força da multidão é indiscutível, mas a força do indivíduo costuma ser menosprezada – o que é um tremendo erro. Esquecemos que, se fazemos a nossa parte com honestidade e boa vontade, o mundo em nossa volta imediatamente começa a mudar. A força da multidão se faz da soma dos indivíduos que a compõe. Sem cada um, não existe o todo.
É o que eu vejo na Escola Ernesta Nunes: indivíduos fazendo a sua parte com dedicação e obstinação.
E eu só posso agradecer pela oportunidade de participar de um pedacinho da história desta escola que faz a sua parte e, por isso, faz a diferença no mundo – inclusive no meu mundo.
Agradecer aos professores, diretores, funcionários, alunos, por me receberem com tanto carinho!
Agradecer ao Sesc Carazinho pela confiança, e ao grande Fernão Duarte, fotógrafo oficial e parceiro de outros carnavais.
E claro: agradecer ao universo, por me dar esta estranha certeza de que estou no melhor lugar em que poderia estar.





Veja mais fotos aqui.

13 julho 2017

Autógrafos do Rui!

Ontem eu estive no Colégio Sinodal Rui Barbosa para buscar meus autógrafos dos pequenos escritores do Rui. Não consegui pegar o autógrafo de nenhum autor na noite de lançamento, por causa da linda e louca confusão que se formou em torno de cada escritor, quando iniciou a sessão de autógrafos.
Mas ontem pude conhecer melhor e conversar com cada um destes pequenos grandes escritores, que continuam me surpreendendo com sua esperteza, sua inteligência, seu carinho, e aquela inocência sábia e astuta que somente as crianças são capazes de ter.
Contei a eles um pouco sobre o processo de edição de seu livro, e eles me cobriram de perguntas, com seus olhinhos brilhantes e desafiadores.
Foi forte, bonito e intenso. Inesquecível de diferentes maneiras.
Obrigada, pequeninos e grandiosos escritores do Rui!
Obrigada por me receberem com tanto amor, e por confiarem em mim, e em nós.
Vou guardar estes autógrafos no lugar mais querido do meu coração. E toda a vez que a desesperança me pegar desprevenida, vou abrir nas primeiras páginas da obra “Pequenos Escritores do Rui”, para me lembrar por que eu sou tão irritantemente otimista e feliz.
Para me lembrar por que eu tenho certeza absoluta de que caminhamos para um futuro mais vibrante e menos triste.


06 julho 2017

Conectar-se com o diferente: você é capaz?

Sabemos que nosso cérebro sempre reage quando entramos em contato com algo que não estamos acostumados. Qualquer situação que nos tire do lugar onde confortavelmente existimos coloca nossa mente a trabalhar em alerta máximo.
Por isso o diferente é assustador: por que o desconhecemos. O diferente nos coloca em uma situação inesperada e desafiadora, e nosso cérebro primata reage atacando. Uma tentativa de nos defender do que não nos é familiar.
Assim, quando vemos um casal homossexual se beijando, nos sentimos constrangidos. Quando cruzamos por um travesti na rua, ele chama nossa atenção de uma forma perturbadora. Quando conhecemos alguém com deficiência, ficamos atordoados e melindrosos.
A não ser, é claro, que você seja ou conviva com casais homossexuais. Ou que seja ou conviva com um travesti. Ou que seja ou conviva com uma pessoa com deficiência.
O nosso cérebro se adapta ao nosso universo (que, convenhamos: é pequeníssimo), e dali parte para definir o que é “normal” e o que é “anormal” para cada um de nós. E então, quando nos deparamos com o desconhecido, com aquilo que nos é estranho, respondemos de modo defensivo, como se o diferente pudesse colocar nossas crenças e certezas, e nossa própria existência, em perigo.
Uma reação instintiva e irracional, típica do homem das cavernas, e da qual precisamos nos libertar o mais rapidamente possível.
Penso que devemos tentar nos conectar com o diferente; tentar encontrar nele pontos em comum – porque estes pontos em comum existem, e geralmente são maiores do que as diferenças.
A próxima vez que encontrarmos pelo caminho alguém que destoe do pequeno universo onde resumimos nossa existência, ao invés de atacar; de nos sentir ameaçados e ofendidos e desconfortáveis; vamos tentar encontrar neste alguém o que nos une. O que nos torna iguais.
Porque enquanto a gente não descobrir um jeito de viver em paz com o que é diferente de nós; enquanto a gente limitar nossa visão ao minúsculo ponto de vista de que dispomos; enquanto nossa percepção não ultrapassar a porta de nosso quarto e o muro de nosso quintal; esqueçam viver em um mundo melhor.
Pois um mundo melhor somente poderá ser melhor se for melhor para todos. E eu disse TODOS. Todos mesmo, sem exceção. 

04 julho 2017

O privilégio de saber que é privilegiado

Você já passou fome? Já dormiu na rua? Já sentiu frio e não encontrou um agasalho para te aquecer? Você já foi humilhado por conta da sua sexualidade? Já se sentiu constrangido por causa de sua cor? Já perdeu um emprego em razão de suas características físicas? Já teve que fugir de seu país em decorrência da guerra ou de desastres naturais? Você já teve vergonha ou receio de falar sobre suas crenças religiosas? Já sentiu medo de abraçar seu namorado(a) na rua?
Se você respondeu “não” para estas perguntas, sorria leitor! Você, assim como eu, é um baita de um privilegiado! Em um mundo onde tantos enfrentam tantas dificuldades, das mais variadas ordens, responder “não” para as perguntas acima faz de ti alguém extremamente afortunado!
Contudo, conheço dezenas de pessoas que responderiam “não” para todas estas perguntas, e mesmo assim são incapazes de reconhecer seus muitos privilégios. E o pior: além de não os reconhecer, ainda acreditam que os possuem apenas por mérito próprio. Seria engraçado se não fosse triste.
Eu sou uma grande privilegiada. Respondo “não” para todas as perguntas acima. Também estudei em escola e faculdade particular, tenho uma família amorosa e estável; nunca sofri privações, humilhações, retaliações, violações. Tenho uma casa para morar e cobertores para me aquecer. Tenho acesso à informação, educação, lazer, cultura, saúde, saneamento básico. Tenho chuveiro quente, comida boa e farta na mesa; vivo com dignidade e em paz. Tenho todas as minhas necessidades supridas e meus direitos básicos respeitados – eu posso abraçar meu namorado na rua e falar das minhas crenças religiosas sem medo de levar uma pedrada. E ainda usufruo de luxos – como escolher o que vou comer e o que vou vestir.
E é por isso que eu sei que, se eu conquistei tudo o que conquistei até hoje, não foi apenas por mérito, esforço e dedicação: foi por que eu tive a sorte e o privilégio de nascer e crescer em um ambiente fértil e acolhedor, repleto de recursos, conforto e oportunidades, no qual tudo colaborou para o meu desenvolvimento.
Mas o maior privilégio do qual eu desfruto, sem dúvida nenhuma, é a consciência plena e clara dos privilégios dos quais eu desfruto.
Porque o privilégio de saber que é privilegiado infelizmente ainda é privilégio de poucos. 

29 junho 2017

Sobre ser escritor

Um problema de ser escritor: todas as bobagens em que você já acreditou; todas as ideias absurdas que você já julgou corretas; todas as opiniões preconceituosas e limitadas que você já teve, ficam registradas para sempre.
Imagina se você tivesse escrito e publicado as besteiras que pensava há dez anos?
Bem, eu escrevi e publiquei, hahaha.
Este blog, que mantenho desde 2008, está repleto de textos bestas. Textos que agora eu leio e fico pensando “mas que merda é essa, Janaína?”.
Estou inclusive cogitando criar o Selo da Vergonha Interna, para incluir nestas publicações, por que, sabe: É CONSTRANGEDOR. 

27 junho 2017

É mais fácil ser triste

Existe uma música, de uma banda gaúcha chamada TNT, que diz: “O céu não me assusta; o inferno, sim”. Parece uma declaração óbvia, e durante muito tempo eu não entendi exatamente o que esta frase queria dizer. No entanto, os anos vão passando, a gente vai mudando, saindo do lugar, e descobre que, na vida, nada é tão óbvio como pode parecer.
E a verdade é que, por mais que soe incoerente, costumamos viver mais confortáveis no inferno do que no céu. Temos mais facilidade em lidar com a tristeza do que com a alegria. Na minha visão, isso acontece porque, quem é triste, não possui qualquer responsabilidade com a felicidade, e muito menos com os outros. Afinal, ser feliz não é um estado humano natural; a felicidade exige compromisso, dedicação, trabalho. E de compromisso, dedicação e trabalho a maioria de nós só quer distância.
Se tristes somos, não precisamos fazer muito esforço. Podemos ficar sentados em nossa vida triste e ainda despertar compaixão e ternura. Pessoas tristes costumam ser tratadas com maior benevolência, porque, afinal, coitadas! São tristes.
Acontece que não há um ser humano neste planeta que chamamos de Terra que tenha a felicidade na genética. Nenhum de nós é naturalmente feliz. As pessoas que conhecemos, e que costumam ser alegres e otimistas, o são porque se empenham para ser. Geralmente são pessoas desacomodadas e desassossegadas, que simplesmente não aceitam viver tristes. Pessoas que abandonam casamentos infelizes; que deixam empregos desgastantes; que se afastam daqueles que lhes fazem mal. Pessoas que também acordam de manhã desmotivadas e chateadas, mas procuram no dia algo que lhes acalente, alegre e conforte.
E para isso é preciso ter coragem.
Sim, é preciso coragem para ser feliz. E coragem pressupõe ânimo e destemor. Pressupõe esforço para sair da zona de (des)conforto.
Evidentemente que não me refiro aqui a casos de depressão – que é uma doença, e como doença deve ser tratada. Falo de pessoas que encontraram na tristeza uma maneira cômoda de seguir sendo parte do problema, e nunca da solução. Quem precisa se esforçar para conviver com elas são os outros; elas somente sofrem, e são tristes. Quem lhes rodeia que se vire para se adaptar à sua infelicidade.
Então, eu desejo sinceramente que não lhe falte coragem para finalmente ser feliz. Porque o céu, meus amigos, não é assustador. O inferno, sim.

23 junho 2017

A Menina do Vídeo Pornô

Toda vez que um vídeo pornográfico caseiro cai na internet, o que se vê, se ouve e se lê são acusações e xingamentos direcionados exclusivamente para a menina que participa da gravação. Puta. Burra. Vadia. Bem feito pra ela. A garota é escorraçada, crucificada, queimada na fogueira, a ponto de ter de abandonar trabalho, escola, cidade, uma vida toda. Mas para o rapaz, que geralmente foi quem gravou e espalhou o vídeo, silêncio. É como se ele não existisse. Justamente ele, o responsável por expor publicamente, e de forma criminosa e traiçoeira, o vídeo ou as fotos de momentos que deveriam ser rigorosamente íntimos.
A menina que se deixa filmar ou fotografar pode, no máximo, ser acusada de ingênua. Pois acreditou que aquela ocasião seria mantida em sigilo; que seria respeitada pelo companheiro, seja ele seu namorado ou não. Já ele, cometeu um ato criminoso perante a lei, e imoral perante as regras mais básicas de civilidade e respeito ao próximo. Também se mostrou um perfeito idiota; um infeliz que precisa afirmar sua própria masculinidade diante dos outros, e que seria digno de pena, caso não fosse, antes, digno de punição.
Ela é a vítima, e fim. Ela foi enganada; ela foi exposta publicamente. Ela será conhecida, por muito tempo, como ‘a menina do vídeo pornô’. E ela não é ‘a menina do vídeo pornô’. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Muitas são menores de idade, e nem completaram quinze anos ainda. Ela poderia ser sua irmã, sua filha, sua mãe, sua melhor amiga. Ela poderia ser você.
A maneira como a sociedade trata a mulher, vítima de casos como estes, só comprova o quanto somos machistas, preconceituosos, atrasados e conservadores. Repetimos mecanicamente o lugar-comum: ‘ele é homem, está fazendo o seu papel’. ‘Ela deveria se dar ao respeito’. ‘Comedor’. ‘Puta’. E assim vamos fortalecendo a engrenagem que mantém este tipo de crime tolerável.
Toda vez que ofendemos e denegrimos a menina; toda vez que passamos adiante estes vídeos e estas fotos, estamos sendo coniventes. Estamos deixando de punir o culpado para punir a vítima.
Não concorda comigo? Ok. E é por isso que eu espero que crimes assim parem de acontecer imediatamente. Porque quando chegar a sua vez, ou a vez de sua filha, sua irmã, sua mãe, sua melhor amiga, você vai descobrir da pior maneira que ‘aquela menina do vídeo pornô’ é muito mais do que aquela menina do vídeo pornô.

16 junho 2017

Amanhã o refugiado pode ser você

Imagine você: o Brasil entra em guerra. De uma hora para outra, explosões e rajadas de tiros se tornam rotina em sua rua, em sua cidade, em seu estado, em seu país. Cidades inteiras são devastadas, mulheres são estupradas, crianças são assassinadas. Milhares morrem. Não demora, e começa a faltar água, comida, energia elétrica. A vida aqui se torna insustentável.
O que você faria?
Provavelmente o mesmo que eu, e o mesmo que estes milhões de refugiados sírios, senegaleses, haitianos estão fazendo: você iria fugir. Pegaria uma mala, algumas roupas, o que sobrou de sua família, e daria o fora. Caminhando, correndo, de barco, de carro, em cima de uma mula. Pouco importa. O que interessa é sair daqui.
Agora imagine que, neste contexto, nós, brasileiros, chegamos a outro país, cuja guerra não é realidade. Estamos humilhados, machucados, sujos, exaustos, famintos. Nossas crianças e nossos idosos, idem. E ao invés de sermos acolhidos, como os seres humanos que somos, fôssemos maltratados, xingados, intimidados. Proibidos de entrar.
Desculpem, mas isso não cabe na minha cabeça. Não consigo entender, e muito menos aceitar, que estas pessoas sejam tratadas como escória, como se fossem uma praga a ser exterminada – e não como seres humanos fugindo da guerra, da morte, da fome. “Mas isto causará um forte impacto econômico nos países que receberem estes refugiados”, dirão os teóricos. E sabe o que eu respondo aos teóricos? FODA-SE o impacto econômico. Estamos falando de mais de 60 milhões de pessoas expulsas de suas casas em todo o mundo, e que não virarão fumaça e se dissiparão no ar só por que a economia precisa continuar crescendo. São pessoas que precisam de abrigo, de amparo, de um pouco de segurança, de um prato de sopa e um copo de água.
Se a solução não é acolher, qual é a solução? Incinerá-las numa fogueira, para que suas presenças não atrapalhem nossa vida confortável e feliz?
No entanto, devo dizer: não fico surpresa com o tratamento que dispensamos aos refugiados. Nós, em nossas casas seguras e quentinhas, deitados no sofá assistindo Netflix de barriga cheia, gostamos de apontar o dedo aos miseráveis, aos necessitados, aos famintos, aos viciados, aos excluídos, e julgá-los severamente.
Agimos como trogloditas, ao mesmo tempo em que vamos à igreja, lemos a bíblia, e postamos frases fofas no Facebook.
Que esta crise global dos refugiados sirva para que nos reavaliemos enquanto sociedade dita cristã. Enquanto indivíduo dito cristão. E, se não cristão, ao menos civilizado. Que sirva para nos fazer entender que já passou da hora de aprendermos a nos colocar no lugar do outro, e vê-lo com olhos mais generosos e amigos. Já passou da hora de olharmos as outras pessoas como pessoas, e perceber que o bem-estar delas é tão importante quanto o nosso bem-estar. Chega de dois pesos e duas medidas.
Até por que, o jogo vira, meus amigos.
Hoje são os sírios, os senegaleses, os haitianos; amanhã poderá ser os americanos, os japoneses, os europeus. Amanhã poderá ser nós, brasileiros. E eu acho que, em uma situação assim, você não iria querer ser recebido com hostilidade por quem, em condição melhor, poderia realmente auxiliar.
Ajudar é sempre melhor do que ser ajudado, e neste momento nós podemos ajudar. Que assim seja, então.

14 junho 2017

Renan.


Esta foto foi tirada em 2007/2008, e este cara que está comigo se chama Renan Soso.
Eu o conheci em 2002, quando entrei para a faculdade, e desde então ele se tornou alguém fundamental na minha vida. Simplesmente não consigo imaginar quem eu seria sem ele. Estudamos juntos por cinco anos, trabalhamos juntos por um ano, fomos vizinhos por dois anos. Ele esteve presente na minha vida de diferentes formas, e estava lá nos momentos mais coloridos, e também nos mais pálidos e sem cor.
Até o dia em que ele foi embora para Porto Alegre.
Contudo, sua presença segue viva, firme e forte na minha vida. Afinal, ele faz parte da pessoa que eu me tornei. Ele está nas minhas conquistas, no meu trabalho, na minha literatura. Ele está nas decisões que eu tomo, nos caminhos que eu percorro. Ele está na minha saudade, no meu coração, nos meus pensamentos, na minha memória. Ele está em mim.
E hoje o Renan faz aniversário. Por isso escrevo este texto, para dizer para ele o que ele já está careca de saber: eu o amo de tantas maneiras, que fica difícil explicar em palavras pagãs.
O Renan mudou para Porto Alegre, depois para Caxias do Sul, casou, tem uma filha linda chamada Cecília. Não somos mais vizinhos, não trabalhamos e nem estudamos mais juntos.
Mas quando a gente se encontra, é como nesta foto.
É como em 2002, em 2007, é como sempre foi. Apesar da distância; apesar da gente conversar muito menos do que eu gostaria e precisaria; apesar da saudade imensa e dolorida; nada, nada, NADA mudou.
Quando a gente se encontra, voltamos para esta foto, para este apartamento, para esta época querida em que tudo era tão simples, miúdo e belo.
O orgulho que sinto de ti, Renanzito, é do tamanho do ser humano que você é. Você é gigante, e eu só posso agradecer ao universo por ter a honra de contar com a tua presença na minha vida, todos os dias, de todas as formas.
Te amo, irmão.
Feliz aniversário!


08 junho 2017

Jornada Nacional de Literatura para quem quiser

Eu sempre tive restrições com a Jornada Nacional de Literatura, e a principal delas era o preço. As inscrições sempre estiveram além, muito além das minhas possibilidades. E assim como eu, obviamente centenas de outras pessoas também não tinham grana para participar. Por conta do preço do ingresso, a Jornada terminava por elitizar seu público, e para mim tudo o que elitiza e exclui é ruim.
Para piorar, além dos valores nada camaradas das inscrições, a Jornada ainda recebia uma boa grana do governo, tanto municipal, quanto estadual e federal. Em 2009 foram 1,1 milhões de reais. Em 2015 a Jornada precisava de meros 3,5 milhões, valor este que não foi obtido, o que gerou o cancelamento e a saída de Tania Rösing do comando da Jornada – cargo que ela ocupava desde sempre.
Muita gente chorou e lamentou o cancelamento, mas eu não. Afinal, a Jornada não havia sido extinta para sempre, e segundo diziam, seria remodelada para se tornar mais “acessível”.
“Acessível”, esta é a palavra que abre portas e mentes! Fiquei feliz com o discurso, mas sempre com aquela pulga atrás da orelha, já que falar é bem mais fácil do que fazer.
No entanto, recentemente divulgaram os valores das inscrições para a 16ª Jornada, que acontece entre 02 e 06 de outubro deste ano. O pacote mais caro custa R$150, e inclui todas as atividades. O mais barato custa R$100, e alunos e professores da UPF têm 50% de desconto.
Ainda achou caro? Então saiba que, em 2009, há longínquos oito anos, o valor da inscrição era R$130. Sendo que, naquela época, o salário mínimo não alcançava R$500. Não é preciso ser um economista para entender que a Jornada não era para quem queria, mas para quem podia.
Significa que melhorou. É o ideal? Não. Está tudo perfeito e maravilhoso? Não. Eu ainda sonho com o dia em que Jornadas de Literatura custarão quase nada, e quiçá serão gratuitas.
Mas baseio meus anseios na realidade, e sei que o mundo não muda em um piscar de olhos, no apertar de um botão, no estalar de um dedo. O importante é que, de 2009 para 2017, melhorou um pouco, o que já é incrível, uma vez que tantas outras coisas pioraram tanto de lá pra cá.
A arte, a cultura, a literatura precisam se tornar cada vez mais acessíveis. Não podem ser privilégio de meia dúzia. E para que isso aconteça, precisamos levar a arte, a cultura e a literatura até quem quer, mesmo que não possa.

29 maio 2017

“Hoje em dia não dá pra falar mais nada: tudo é racismo, machismo, preconceito”

Eis a frase mais pronunciada por quem nunca sofreu racismo, machismo e preconceito. E vejam só o drama vivido por estas pobres criaturas: agora elas não podem mais debochar em paz de homossexuais, de negros, de deficientes físicos, de mulheres, de imigrantes, pois sempre haverá um “chato” para reprimi-las, para questioná-las, para constrangê-las. “Agora não dá pra falar nada”, elas reclamam.
Que vida irritante essa do “politicamente correto”, não? Não.
No entanto, por mais que me pareça óbvio que “piadas” que humilham grupos que já são humilhados não são piadas coisa nenhuma, sei que para muitas pessoas é difícil acompanhar o andar da carruagem.
Porque o mundo mudou muito nos últimos anos. De modo que, a maioria dos discursos que nos ensinaram, e que nascemos e crescemos ouvindo e repetindo, simplesmente não fazem mais sentido agora.
Porém, para abrir mão das lições erradas que aprendemos, precisamos primeiro admitir que as lições que aprendemos estão erradas. Um processo de desconstrução íntima que, para alguns, é aterrorizante.
Assim sendo, quando o sujeito se vê diante de uma situação onde suas crenças – pessoais, familiares, políticas – são questionadas e comprovadamente derrubadas, ele tem dois caminhos para seguir: o primeiro, e mais inteligente, é admitir o erro e tentar entender como, onde e por que errou. O segundo é se agarrar na lição errada com unhas, dentes e desespero. A maioria ainda escolhe a segunda opção.  
Afinal, é mais fácil bater o pé e dizer “não importam os dados, os fatos, as estatísticas, a realidade; essa é a MINHA OPINIÃO”, do que reavaliar suas certezas, assumir que errou e mudar de ideia.
Por isso é tão difícil de conversar com algumas pessoas, cujas opiniões seguem enraizadas a preconceitos primitivos, e nenhum argumento é capaz de colocá-las a refletir. São pessoas que não estão dispostas sequer a ouvir o outro lado, e justamente por isso possuem uma visão tão limitada; elas só enxergam a partir de seu minúsculo e deturpado ângulo.
Todavia, para que nossa sociedade melhore, nós precisamos melhorar como indivíduos. Precisamos ter mais compaixão e simpatia na hora de ver o outro.
Fazer piada de grupos que ainda lutam pelos seus direitos civis mais básicos, além de estúpido, endossa o discurso do opressor e agride o oprimido. E é assim que assumimos, também, o papel de opressor.  
Então, se quem é vítima do racismo, do machismo e do preconceito apontar o racismo, o machismo e o preconceito em você, em vez de se ofender e se defender, apenas escute e reflita. 
Porque, acreditem: não nos tornaremos melhores ou menos violentos rindo da dor alheia. Rir do próximo é uma forma de silenciá-lo.
E quem silencia não pode reclamar quando é silenciado.

23 maio 2017

Bruno

Foi assim: há algum tempo o Fernão Duarte me contou que conheceu um menino chamado Bruno, que lhe disse que tomou gosto pela leitura depois de assistir a minha palestra, A Literatura Não é Chata, e ler meu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.
De lá pra cá o Bruno já leu mais de 100 livros, e mantém uma estante repleta de títulos em sua casa. Sua média de leitura são 30 livros por ano – goleada sobre a média nacional, que não ultrapassa dois míseros livrinhos por ano.
É claro que não tenho a pretensão de dizer que o Bruno começou a ler por minha causa. Afinal, a semente da leitura já estava ali. O máximo que eu fiz foi dar uma adubada, regar, e feito: nasceu mais um leitor!
De qualquer maneira é um orgulho pra mim. Afinal, quando elaborei a palestra A Literatura Não é Chata, meu objetivo era justamente este: convencer ao menos UM estudante das vantagens e benefícios da leitura. Eu sempre disse, ao final de cada palestra, que, se pelo menos um aluno ali presente desse uma chance para a literatura, então tudo teria valido a pena.
O Bruno é um destes alunos que faz tudo valer a pena. Que resolveu experimentar a literatura, e nunca mais a abandonou. E eu só posso agradecer pela confiança, pelo carinho, e por ele permitir que eu fizesse parte do trampolim que o lançou para este universo mágico e único dos livros, que só quem lê conhece e entende.
Hoje o Bruno é um jovem perigoso: perigoso para um sistema corrupto e falido; perigoso para uma sociedade preconceituosa e violenta; perigoso para todos aqueles que desejam, através da ignorância, conservar o povo subserviente.
Bruno se tornou um cidadão ameaçador para quem não deseja transformar o mundo em um lugar mais pensante e menos triste. Agora ele representa perigo ao status quo.
De minha parte, fico muito feliz por ter ajudado o Bruno a se armar e se municiar contra a estupidez de um país que só lê dois livros por ano, e acredita que cultura é coisa de vagabundo. Um Brasil judiado, intelectualmente inabilitado para perceber que é refém da própria inabilidade intelectual.
Bruno é parte de um exército ainda pequenino e discreto, mas que cresce a cada dia. Um exército de desobedientes, que sabem que não há prisão mais desumana do que aquela que mantém seus presos em cárcere intelectual. Um exército que luta com livros, ao invés de armas.
Um exército que deseja libertar todos os presos intelectuais deste país, e que acredita na intervenção literária e cultural para nos arrancar da poça de lama onde estamos nos afogando.
Bruno, seguimos juntos! 


(Matéria sobre o Bruno e O Túmulo do Ladrão, publicada na coluna DuArt&Cultura, do meu querido Fernão Duarte, na última edição do jornal Correio Regional. Valeu, Fernãozito!)

15 maio 2017

Perto da minha casa tem uma pracinha.

Pequenina, um charme só. Porém, esta pracinha sempre esteve descuidada e desamparada: grama alta, bancos demolidos, pouca iluminação, sujeira. Não demorou, virou ponto de bebedeira e uso de drogas. Ao entardecer, os moradores, vizinhos da praça, somente observavam a movimentação estranha através de suas cortinas e grades.
Até que, cansados da situação, os vizinhos decidiram se reunir, se mobilizar e tomar uma atitude. Então limparam a praça, trocaram a luz do poste, cortaram a grama, consertaram e pintaram os bancos, colocaram um balanço e um escorregador. Sem contar a geladeira cultural, que já está cheia de livros.
Resultado: revitalização. De ponto de drogas a ponto de encontro em poucas semanas. Estes dias passei por ali (algo que não costumava fazer antes, admito), e vi uma mãe sentada com seu filho pequeno, de uns quatro anos, lendo um livrinho. Quase chorei. Minto: eu chorei. Porque estava vendo, com estes olhos que a terra há de comer, como pequenas atitudes podem mudar o mundo inteiro.
O Brasil precisa se revitalizar como esta pracinha. E esta revitalização, tal e qual aconteceu com a pracinha, passa pela mudança e mobilização das pessoas que ali vivem. Os moradores poderiam continuar trancados em casa depois das 18h, reclamando dos viciados, da sujeira, do governo, da vida, de Deus. Mas decidiram levantar suas bundinhas do sofá e tomar uma atitude.
Esta pracinha não é a primeira a ser revitalizada por seus vizinhos em Carazinho, e tenho certeza que não será a última. Porque, vagarosamente, estamos compreendendo que a cidade onde moramos é nossa, minha e tua, e toda vez que a agredimos e a negligenciamos, estamos agredindo e negligenciando nosso próprio lar – como quem cospe no prato no qual come. Esta compreensão transforma o cenário de uma pracinha, mas transforma também o cenário de todo um país.
Mais do que criticar nossos governantes – e nós devemos criticá-los, claro! – devemos também assumir nossa responsabilidade por este Brasil judiado que habitamos. A pátria amada está ferida e a culpa também é minha. E tua.
É óbvio que o governo deveria cuidar do país, e é óbvio que a prefeitura deveria cuidar das nossas praças. Fazer pelo menos o mínimo, como manter a grama cortada e os postes de luz ligados. Isso muda tudo e custa quase nada. Mas não, eles não fazem. E se nossos governantes não fazem, precisamos cobrá-los, mas precisamos também fazer. Caso contrário, seremos exatamente como eles.
Porém, se você acha que revitalizar uma pracinha não ajuda a revitalizar um país, pense comigo: quão diferente seria nossa realidade se todas as pracinhas de todos os bairros de todas as cidades de todo o Brasil estivessem bonitas e atrativas?
A mudança sempre parte do indivíduo para o coletivo; vem de baixo para cima, de dentro para fora. Não se revitaliza uma pracinha sem o apoio de cada pessoa que vive ali. Imagina um país.

Foto: a pracinha perto da minha casa. Por Alessandro Finger. 

09 maio 2017

"O Túmulo do Ladrão": 4 anos!


Hoje completam quatro anos do lançamento do meu 2º livro, O Túmulo do Ladrão, publicado pela Editora Multifoco e editado pelo meu querido Frodo Oliveira.
Há quatro anos eu morava em Sananduva/RS, e realizei o lançamento na Casa da Cultura Prefeito Hilário Copatti durante o Dia Literário. Foi a primeira vez que eu ministrei a palestra “A Literatura Não é Chata”, que depois repeti inúmeras vezes, em inúmeras escolas. E também foi a primeira vez que realizei uma oficina com estudantes, e os textos elaborados por eles neste dia se transformaram no livro Conte um Conto Vol. II, lançado em 2014.
Ou seja: o dia 9 de maio é um dia muito importante para mim.
Obrigada Silvia Regina Tartari Neves e sua trupe incrível da Casa da Cultura, e aos amigos mais que especiais do Colégio Estadual Sananduva, por abrirem suas portas e me deixarem entrar.
Obrigada ao Frodo Oliveira e a galera da Editora Multifoco, que sempre confiaram e apostaram no meu trampo.
Obrigada ao Mario Cau, grande amigo e grande artista, responsável pela ilustração (foda) de capa d’O Túmulo do Ladrão.
Obrigada ao Afobório, meu parceiro e cúmplice, pelo apoio e sustentação, e aos meus pais, que são apenas os pais mais sensacionais do sistema solar.
Obrigada também ao Leandro Becker, meu primo, meu amigo e meu sócio nos empreendimentos Gatos Contra-Atacam (hahaha), que prefaciou lindamente O Túmulo do Ladrão.
Não, não parece que foi ontem. Parece que foi há quatro anos mesmo.
E tudo o que aconteceu entre o dia 9 de maio de 2013 e o dia 9 de maio de 2017 – e foram tantas coisas legais! – eu devo a vocês, amigos, que sempre estiveram ao meu lado, me empurrando pra frente, me dizendo: VAI!
Eu e O Túmulo do Ladrão não estaríamos aqui sem vocês!



08 maio 2017

Você, o presidente da empresa e o garçom

João é gentil e cortês com o presidente da empresa, pois sabe que se trata de um homem distinto, bem-sucedido, poderoso, e que obviamente está acima dele na pirâmide hierárquica que compõe nossa sociedade. Nesta pirâmide, o presidente da empresa está lá em cima, e João está ali pelo meio. Logo, João se comporta com deferência, e até certa submissão, quando está em sua presença, pois se considera menos importante do que o presidente da empresa.
Mas João não é gentil e cortês com o garçom, pois sabe que o garçom está abaixo dele na tal da pirâmide. Por isso, não há a menor necessidade de tratá-lo com respeito, e nem mesmo com educação. João se considera mais importante do que o garçom.
Eu conheço pessoalmente dezenas de Joãos, homens e mulheres, ricos, pobres, brancos, negros, analfabetos e doutores. E algo que é idêntico em todos é modelar o tratamento que dão ao próximo baseado em quem o próximo é. Gente que se considera genuinamente inferior em relação a alguns, e genuinamente superior em relação a outros. Algo bem perturbador.
Contudo, assim é a sociedade; assim somos nós. Nunca nos sentimos iguais: ou nos achamos inferiores, ou nos achamos superiores. A nossa percepção sobre quem somos diz que o presidente da empresa está acima e o garçom está abaixo, mas a verdade é que não existe em cima e embaixo, só ao lado.
Porque essa pirâmide é imaginária; ela não é real. Nós a forjamos, e colocamos lá em cima quem tem mais grana, poder e influência, e lá embaixo quem não tem. E nesta organização injusta nos ajeitamos ali pelo meio, onde conseguimos lamber o chão onde passa o presidente da empresa, e pisar na cabeça do garçom. Tudo o que sofremos com o primeiro descontamos no segundo.
E o mais curioso é que esta postura submissa/opressiva não tem nada a ver com o outro. O presidente da empresa e o garçom são coadjuvantes nesta história. Esta postura tem a ver com a forma como nos enxergamos. E é aqui, exatamente aqui, que reside o grande problema.
Já passou da hora da gente começar a se perceber como realmente é, ou seja: iguais. O imigrante e o conterrâneo, o mendigo e o patrão, o louco e o sensato, o viciado e o abstêmio, eu, você: todos humanos.
Quando isso acontecer, e esta pirâmide ilusória se desintegrar, certamente seremos mais felizes. Porque, quando paramos de pisar, paramos de ser pisados. Seja você o presidente da empresa ou o garçom.

04 maio 2017

Nascidos para criar

Eu acredito que o ser humano é uma criatura essencialmente criativa, de fato nascida para criar. Está em nossa natureza realizar atividades que gerem resultados palpáveis, seja lavar a louça ou salvar golfinhos da extinção. E quando não criamos, quando nossa mente e nosso corpo mantêm-se em inatividade, deprimimos nosso organismo de diferentes maneiras.
É lógico que o descanso e o lazer são importantíssimos para nossa saúde, seja física ou emocional. O problema é quando o tempo em repouso é igual ou maior que o tempo em movimento. Aí dá pane no sistema central.
Percebo que, enquanto sociedade, passamos muito tempo em estado passivo: assistindo TV, acessando as redes sociais, jogando joguinhos virtuais, navegando aleatoriamente pela internet. Situações letárgicas que exigem de nosso cérebro pouco ou nenhum esforço produtivo e criador. Neste processo, a preguiça mental gera a preguiça intelectual, que por sua vez gera a preguiça física – este mal que aflige e paralisa tantas pessoas, muitas vezes levando a quadros psíquicos realmente graves.
Não é apenas nosso corpo que precisa de atividade. Há também o sedentarismo mental, que é tão nocivo quanto o sedentarismo físico.
Realizar, produzir, inventar, fazer acontecer – seja lavar a louça ou salvar golfinhos da extinção – estimula positivamente nosso cérebro, tirando-o do entorpecimento.
Tudo o que nos coloca em situação de espectador, quando em excesso, termina por nos aniquilar.
Porque não nascemos para assistir. Nascemos para criar.

27 abril 2017

O que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?

Esta é uma pergunta que deveríamos nos fazer, ao invés de apenas criticar e debochar de uma situação que é, no mínimo, bizarra: crianças e adolescentes mutilando-se e suicidando-se enquanto seus pais dormem tranquilamente no quarto ao lado. 
Nestes últimos dias, vi muitas piadas sobre o jogo Baleia Azul. Também li comentários indignados, chamando estes jovens de burros, bestas, desocupados. “Falta de louça pra lavar”. “Vão capinar um terreno baldio”. “Tem que dar umas bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Porém, eu desconfio que o buraco é mais embaixo. Afinal, me parece óbvio que este jogo é mais uma consequência; não é a causa do problema.
Estamos acostumados a focar na sequela, não na origem do mal. Brigamos com os galhos, sempre ignorando o tronco e a raiz. Apenas reagimos e remediamos, nunca prevenimos.
Por isso, é preciso encontrar os criminosos por trás deste jogo, e puni-los severamente. Também é imprescindível promover campanhas para proteger a gurizada. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar: o que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?
Nós, sociedade. Nós, humanidade. Nós, seres humanos. O que estamos fazendo de tão errado, para produzirmos tantos jovens emocionalmente desequilibrados, capazes de matar e morrer por um jogo sem sentido?
Os índices de suicídio, em todo o globo terrestre, são alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos – uma a cada 40 segundos. Isto significa que, enquanto você lê este texto, pelo menos dez pessoas tirarão a própria vida. A taxa de suicídio entre jovens, então, é inaceitável. Trata-se da segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, perdendo apenas para acidentes de trânsito. Tem mais: o suicídio entre crianças de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos, e 33% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Neste cenário desolador, um jogo como o Baleia Azul prosperar não é nada tão impressionante, convenhamos.
Mas por que nossos jovens se suicidam? Por que eles preferem morrer, ao invés de fazer planos para o futuro? Por que eles não vislumbram o futuro?
Não encontramos as respostas certas porque fazemos as perguntas erradas. E a prova está na reação que muitas pessoas tiveram ao jogo Baleia Azul: “louça pra lavar”, “capinar terreno baldio”, “bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Estes somos nós: inventando soluções simplórias para problemas complexos, como se tudo fosse pá e pum, assim ou assado, preto ou branco, prático, objetivo, superficial, tão simples.
Não, nada é assim tão simples. Se até as bactérias são complexas, amigo, imagina o ser humano! E é justamente por que ignoramos esta complexidade que somos uma sociedade tão doente – que, naturalmente, produz crianças e adolescentes doentes.
A nossa reação ao jogo Baleia Azul mostra por que o jogo Baleia Azul existe.
Afinal, nós realmente acreditamos que as pessoas se suicidam porque não têm louça pra lavar. Afirmamos categoricamente que “umas bofetadas na cara” podem tirar alguém da depressão. Ao invés de acolher o doente, nós queremos que ele vá capinar um terreno baldio.
Não queremos nem saber que 90% dos suicidas sofrem de algum transtorno mental, sendo a depressão o principal deles. Depressão esta que acomete um número cada vez maior de pessoas, e segundo a OMS, aumentou em 18% entre 2005 e 2015, sendo a principal causa de incapacidade laboral no planeta. A estimativa é que, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofram com a doença no mundo.
Ignoramos todos estes dados. Tratamos a doença como “frescura” e o doente como “folgado”, e depois ainda nos perguntamos, muito confusos: como chegamos até aqui?
O jogo Baleia Azul é perturbador de muitas formas. Mas talvez sua face mais sinistra e sombria seja aquela que reflete a nossa própria face. Porque nós, sociedade, também jogamos um jogo doentio. E perdemos sempre. 

21 abril 2017

Dizem que um livro termina de ser escrito pelo leitor.

Afinal, é o leitor quem interpreta e reinterpreta a obra; quem dá sentido, fundamento e significado ao que foi escrito. Um livro sem leitor é um livro inacabado, incompleto. E se assim for, posso garantir que O Duplo da Terra, meu terceiro livro, terminou de ser escrito ontem – e com maestria.
Porque até agora eu não consegui encontrar palavras no dicionário para explicar a enorme emoção que foi participar do Dia Literário do Instituto Educacional Girassol, ontem de manhã.
Os alunos leram O Duplo da Terra, e fizeram cartazes, textos, montagens, colagens, desenhos, e até um teatro lindo sobre a obra.
Foram tantos trabalhos magníficos, e minha emoção era tamanha, que todas as fotos que eu tirei (e foram quase 40) saíram tremidas. Só deu para salvar esta, que eu publico abaixo – e que dá uma boa prévia de tudo o que eu vi e vivi ontem.
Para minha sorte, a escola tirou um monte de fotos também, e assim que as divulgarem, eu divulgo aqui. Porque SÓ VENDO para vocês entenderem do que eu estou falando.
Além dos trabalhos da gurizada, eu também ministrei uma palestra chamada “Encaixotando o Problema”, e depois ficamos ali, trocando mil ideias.
Falamos de literatura, do jogo Baleia Azul e do jogo Baleia Rosa, de feminismo, de vida após a morte, de alienígenas, de privilégios, de sereias, da violência contra a mulher, de doenças físicas e emocionais, de gatos, de digestão mental, e de tudo o mais que vocês puderem imaginar!
Foi sensacional! Entrei na escola às 8h da manhã e saí só ao meio-dia, coberta de amor da cabeça aos pés.
Obrigada, alunos!
Obrigada, Instituto Educacional Girassol.
Obrigada professores, funcionários, direção.
Do mesmo jeito que me faltam palavras para definir a enorme emoção que foi o dia de ontem, me faltam palavras para agradecer.
Obrigada por concederem tanto sentido, fundamento e significado ao meu livro.
Obrigada por terminarem de escrever O Duplo da Terra com tanta beleza, leveza e capricho.
Nunca vou me esquecer do dia 20 de abril de 2017. Nunca!



19 abril 2017

Rebelem-se, garotas!

Eu cresci lendo revistas adolescentes que ensinavam qual maquiagem os meninos gostavam, e qual não gostavam. Revistas e programas de TV que diziam como deveríamos nos comportar, como deveríamos nos vestir, como deveríamos pensar para nos encaixar. As regras eram duras: era preciso ser magra. Ter o cabelo liso, longo, sem volume nem frizz. Ser gentil, doce, meiga e agradável. Não “ser puta”. Não falar alto. Não sentar de pernas abertas. Ser inteligente, mas não muito, para “não assustar os homens”.
Estas revistas ensinavam que nós, garotas, precisávamos nos adaptar, nos modificar – nos mutilar, se preciso fosse! – para sermos aceitas. Para sermos consideradas bonitas. Para fazermos parte. Para existirmos.
E assim eu cresci: alisando meu cabelo crespo, volumoso e com frizz; fazendo dietas malucas; usando camiseta sobre o biquíni; escondendo meu corpo. Odiando-me dia sim e outro também. Tentando desesperadamente ser acolhida pelos padrões. Tentando desesperadamente me ajustar naquilo que os outros – mídia, sociedade, homens – esperavam de mim.
No entanto, num belo dia eu me dei conta de que não precisava me encaixar porra nenhuma. Que estas regras eram cruéis e covardes, além de impossíveis, e me colocavam em guerra com a única pessoa que eu deveria realmente agradar, amar, respeitar e me importar: eu mesma.
Odiar meu corpo, meu rosto, meu cabelo, era justamente o objetivo desta mídia, desta sociedade e desta indústria de beleza doentias, cuja intenção sempre foi fazer eu me sentir mal por ser quem eu era – para que, assim, pudesse gastar rios de dinheiro alisando o cabelo, comprando shakes e remédios emagrecedores, fazendo academia, fazendo plásticas, fazendo compras.
Este sistema desumano e sádico lucra, e muito, com a insatisfação e a infelicidade das mulheres e, através de suas regras bizarras, nos mantêm loucas e domesticadas.
Naomi Wolf, escritora americana, escreveu:
“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão com a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”.
Um fato.
Os padrões de beleza e comportamento impostos às mulheres não são referentes ao nosso cabelo, nossa roupa, nosso corpo e nossa forma de agir. São referentes à nossa cidadania. Trata-se de um projeto social e político, cujo objetivo é nos conservar permanentemente tristes, desconfortáveis, malucas e caladas, exclusivamente focadas em nos adaptar; em sermos aceitas por ser alguém que não somos. Nem que para isso seja necessário gastar todo nosso dinheiro, nossa saúde, nossa alegria e nossa sanidade mental.
E em um mundo que trabalha arduamente para que a gente odeie nossa própria aparência, se amar, se respeitar, se achar bonita – mesmo que totalmente fora destas regras e destes padrões medonhos – é, sim, um ato de rebeldia.
Então eu convido você, minha querida leitora, a rebelar-se.
Afinal, nem você, nem eu, e nem nenhuma de nós precisa fazer parte deste jogo de cartas marcadas, onde nós, garotas, vamos perder sempre. Não importa o quanto a gente se esforce.
Por isso eu digo ao sistema, à mídia, às revistas, aos homens, à sociedade: tirem suas mãos de mim! De mim, do meu corpo, do meu cabelo, do meu jeito de ser!
Porque eu aprendi a me amar, e uma mulher capaz de se amar é uma mulher capaz de fazer qualquer coisa.