29 junho 2017

Sobre ser escritor

Um problema de ser escritor: todas as bobagens em que você já acreditou; todas as ideias absurdas que você já julgou corretas; todas as opiniões preconceituosas e limitadas que você já teve, ficam registradas para sempre.
Imagina se você tivesse escrito e publicado as besteiras que pensava há dez anos?
Bem, eu escrevi e publiquei, hahaha.
Este blog, que mantenho desde 2008, está repleto de textos bestas. Textos que agora eu leio e fico pensando “mas que merda é essa, Janaína?”.
Estou inclusive cogitando criar o Selo da Vergonha Interna, para incluir nestas publicações, por que, sabe: É CONSTRANGEDOR. 

27 junho 2017

É mais fácil ser triste

Existe uma música, de uma banda gaúcha chamada TNT, que diz: “O céu não me assusta; o inferno, sim”. Parece uma declaração óbvia, e durante muito tempo eu não entendi exatamente o que esta frase queria dizer. No entanto, os anos vão passando, a gente vai mudando, saindo do lugar, e descobre que, na vida, nada é tão óbvio como pode parecer.
E a verdade é que, por mais que soe incoerente, costumamos viver mais confortáveis no inferno do que no céu. Temos mais facilidade em lidar com a tristeza do que com a alegria. Na minha visão, isso acontece porque, quem é triste, não possui qualquer responsabilidade com a felicidade, e muito menos com os outros. Afinal, ser feliz não é um estado humano natural; a felicidade exige compromisso, dedicação, trabalho. E de compromisso, dedicação e trabalho a maioria de nós só quer distância.
Se tristes somos, não precisamos fazer muito esforço. Podemos ficar sentados em nossa vida triste e ainda despertar compaixão e ternura. Pessoas tristes costumam ser tratadas com maior benevolência, porque, afinal, coitadas! São tristes.
Acontece que não há um ser humano neste planeta que chamamos de Terra que tenha a felicidade na genética. Nenhum de nós é naturalmente feliz. As pessoas que conhecemos, e que costumam ser alegres e otimistas, o são porque se empenham para ser. Geralmente são pessoas desacomodadas e desassossegadas, que simplesmente não aceitam viver tristes. Pessoas que abandonam casamentos infelizes; que deixam empregos desgastantes; que se afastam daqueles que lhes fazem mal. Pessoas que também acordam de manhã desmotivadas e chateadas, mas procuram no dia algo que lhes acalente, alegre e conforte.
E para isso é preciso ter coragem.
Sim, é preciso coragem para ser feliz. E coragem pressupõe ânimo e destemor. Pressupõe esforço para sair da zona de (des)conforto.
Evidentemente que não me refiro aqui a casos de depressão – que é uma doença, e como doença deve ser tratada. Falo de pessoas que encontraram na tristeza uma maneira cômoda de seguir sendo parte do problema, e nunca da solução. Quem precisa se esforçar para conviver com elas são os outros; elas somente sofrem, e são tristes. Quem lhes rodeia que se vire para se adaptar à sua infelicidade.
Então, eu desejo sinceramente que não lhe falte coragem para finalmente ser feliz. Porque o céu, meus amigos, não é assustador. O inferno, sim.

23 junho 2017

A Menina do Vídeo Pornô

Toda vez que um vídeo pornográfico caseiro cai na internet, o que se vê, se ouve e se lê são acusações e xingamentos direcionados exclusivamente para a menina que participa da gravação. Puta. Burra. Vadia. Bem feito pra ela. A garota é escorraçada, crucificada, queimada na fogueira, a ponto de ter de abandonar trabalho, escola, cidade, uma vida toda. Mas para o rapaz, que geralmente foi quem gravou e espalhou o vídeo, silêncio. É como se ele não existisse. Justamente ele, o responsável por expor publicamente, e de forma criminosa e traiçoeira, o vídeo ou as fotos de momentos que deveriam ser rigorosamente íntimos.
A menina que se deixa filmar ou fotografar pode, no máximo, ser acusada de ingênua. Pois acreditou que aquela ocasião seria mantida em sigilo; que seria respeitada pelo companheiro, seja ele seu namorado ou não. Já ele, cometeu um ato criminoso perante a lei, e imoral perante as regras mais básicas de civilidade e respeito ao próximo. Também se mostrou um perfeito idiota; um infeliz que precisa afirmar sua própria masculinidade diante dos outros, e que seria digno de pena, caso não fosse, antes, digno de punição.
Ela é a vítima, e fim. Ela foi enganada; ela foi exposta publicamente. Ela será conhecida, por muito tempo, como ‘a menina do vídeo pornô’. E ela não é ‘a menina do vídeo pornô’. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Muitas são menores de idade, e nem completaram quinze anos ainda. Ela poderia ser sua irmã, sua filha, sua mãe, sua melhor amiga. Ela poderia ser você.
A maneira como a sociedade trata a mulher, vítima de casos como estes, só comprova o quanto somos machistas, preconceituosos, atrasados e conservadores. Repetimos mecanicamente o lugar-comum: ‘ele é homem, está fazendo o seu papel’. ‘Ela deveria se dar ao respeito’. ‘Comedor’. ‘Puta’. E assim vamos fortalecendo a engrenagem que mantém este tipo de crime tolerável.
Toda vez que ofendemos e denegrimos a menina; toda vez que passamos adiante estes vídeos e estas fotos, estamos sendo coniventes. Estamos deixando de punir o culpado para punir a vítima.
Não concorda comigo? Ok. E é por isso que eu espero que crimes assim parem de acontecer imediatamente. Porque quando chegar a sua vez, ou a vez de sua filha, sua irmã, sua mãe, sua melhor amiga, você vai descobrir da pior maneira que ‘aquela menina do vídeo pornô’ é muito mais do que aquela menina do vídeo pornô.

16 junho 2017

Amanhã o refugiado pode ser você

Imagine você: o Brasil entra em guerra. De uma hora para outra, explosões e rajadas de tiros se tornam rotina em sua rua, em sua cidade, em seu estado, em seu país. Cidades inteiras são devastadas, mulheres são estupradas, crianças são assassinadas. Milhares morrem. Não demora, e começa a faltar água, comida, energia elétrica. A vida aqui se torna insustentável.
O que você faria?
Provavelmente o mesmo que eu, e o mesmo que estes milhões de refugiados sírios, senegaleses, haitianos estão fazendo: você iria fugir. Pegaria uma mala, algumas roupas, o que sobrou de sua família, e daria o fora. Caminhando, correndo, de barco, de carro, em cima de uma mula. Pouco importa. O que interessa é sair daqui.
Agora imagine que, neste contexto, nós, brasileiros, chegamos a outro país, cuja guerra não é realidade. Estamos humilhados, machucados, sujos, exaustos, famintos. Nossas crianças e nossos idosos, idem. E ao invés de sermos acolhidos, como os seres humanos que somos, fôssemos maltratados, xingados, intimidados. Proibidos de entrar.
Desculpem, mas isso não cabe na minha cabeça. Não consigo entender, e muito menos aceitar, que estas pessoas sejam tratadas como escória, como se fossem uma praga a ser exterminada – e não como seres humanos fugindo da guerra, da morte, da fome. “Mas isto causará um forte impacto econômico nos países que receberem estes refugiados”, dirão os teóricos. E sabe o que eu respondo aos teóricos? FODA-SE o impacto econômico. Estamos falando de mais de 60 milhões de pessoas expulsas de suas casas em todo o mundo, e que não virarão fumaça e se dissiparão no ar só por que a economia precisa continuar crescendo. São pessoas que precisam de abrigo, de amparo, de um pouco de segurança, de um prato de sopa e um copo de água.
Se a solução não é acolher, qual é a solução? Incinerá-las numa fogueira, para que suas presenças não atrapalhem nossa vida confortável e feliz?
No entanto, devo dizer: não fico surpresa com o tratamento que dispensamos aos refugiados. Nós, em nossas casas seguras e quentinhas, deitados no sofá assistindo Netflix de barriga cheia, gostamos de apontar o dedo aos miseráveis, aos necessitados, aos famintos, aos viciados, aos excluídos, e julgá-los severamente.
Agimos como trogloditas, ao mesmo tempo em que vamos à igreja, lemos a bíblia, e postamos frases fofas no Facebook.
Que esta crise global dos refugiados sirva para que nos reavaliemos enquanto sociedade dita cristã. Enquanto indivíduo dito cristão. E, se não cristão, ao menos civilizado. Que sirva para nos fazer entender que já passou da hora de aprendermos a nos colocar no lugar do outro, e vê-lo com olhos mais generosos e amigos. Já passou da hora de olharmos as outras pessoas como pessoas, e perceber que o bem-estar delas é tão importante quanto o nosso bem-estar. Chega de dois pesos e duas medidas.
Até por que, o jogo vira, meus amigos.
Hoje são os sírios, os senegaleses, os haitianos; amanhã poderá ser os americanos, os japoneses, os europeus. Amanhã poderá ser nós, brasileiros. E eu acho que, em uma situação assim, você não iria querer ser recebido com hostilidade por quem, em condição melhor, poderia realmente auxiliar.
Ajudar é sempre melhor do que ser ajudado, e neste momento nós podemos ajudar. Que assim seja, então.

14 junho 2017

Renan.


Esta foto foi tirada em 2007/2008, e este cara que está comigo se chama Renan Soso.
Eu o conheci em 2002, quando entrei para a faculdade, e desde então ele se tornou alguém fundamental na minha vida. Simplesmente não consigo imaginar quem eu seria sem ele. Estudamos juntos por cinco anos, trabalhamos juntos por um ano, fomos vizinhos por dois anos. Ele esteve presente na minha vida de diferentes formas, e estava lá nos momentos mais coloridos, e também nos mais pálidos e sem cor.
Até o dia em que ele foi embora para Porto Alegre.
Contudo, sua presença segue viva, firme e forte na minha vida. Afinal, ele faz parte da pessoa que eu me tornei. Ele está nas minhas conquistas, no meu trabalho, na minha literatura. Ele está nas decisões que eu tomo, nos caminhos que eu percorro. Ele está na minha saudade, no meu coração, nos meus pensamentos, na minha memória. Ele está em mim.
E hoje o Renan faz aniversário. Por isso escrevo este texto, para dizer para ele o que ele já está careca de saber: eu o amo de tantas maneiras, que fica difícil explicar em palavras pagãs.
O Renan mudou para Porto Alegre, depois para Caxias do Sul, casou, tem uma filha linda chamada Cecília. Não somos mais vizinhos, não trabalhamos e nem estudamos mais juntos.
Mas quando a gente se encontra, é como nesta foto.
É como em 2002, em 2007, é como sempre foi. Apesar da distância; apesar da gente conversar muito menos do que eu gostaria e precisaria; apesar da saudade imensa e dolorida; nada, nada, NADA mudou.
Quando a gente se encontra, voltamos para esta foto, para este apartamento, para esta época querida em que tudo era tão simples, miúdo e belo.
O orgulho que sinto de ti, Renanzito, é do tamanho do ser humano que você é. Você é gigante, e eu só posso agradecer ao universo por ter a honra de contar com a tua presença na minha vida, todos os dias, de todas as formas.
Te amo, irmão.
Feliz aniversário!


08 junho 2017

Jornada Nacional de Literatura para quem quiser

Eu sempre tive restrições com a Jornada Nacional de Literatura, e a principal delas era o preço. As inscrições sempre estiveram além, muito além das minhas possibilidades. E assim como eu, obviamente centenas de outras pessoas também não tinham grana para participar. Por conta do preço do ingresso, a Jornada terminava por elitizar seu público, e para mim tudo o que elitiza e exclui é ruim.
Para piorar, além dos valores nada camaradas das inscrições, a Jornada ainda recebia uma boa grana do governo, tanto municipal, quanto estadual e federal. Em 2009 foram 1,1 milhões de reais. Em 2015 a Jornada precisava de meros 3,5 milhões, valor este que não foi obtido, o que gerou o cancelamento e a saída de Tania Rösing do comando da Jornada – cargo que ela ocupava desde sempre.
Muita gente chorou e lamentou o cancelamento, mas eu não. Afinal, a Jornada não havia sido extinta para sempre, e segundo diziam, seria remodelada para se tornar mais “acessível”.
“Acessível”, esta é a palavra que abre portas e mentes! Fiquei feliz com o discurso, mas sempre com aquela pulga atrás da orelha, já que falar é bem mais fácil do que fazer.
No entanto, recentemente divulgaram os valores das inscrições para a 16ª Jornada, que acontece entre 02 e 06 de outubro deste ano. O pacote mais caro custa R$150, e inclui todas as atividades. O mais barato custa R$100, e alunos e professores da UPF têm 50% de desconto.
Ainda achou caro? Então saiba que, em 2009, há longínquos oito anos, o valor da inscrição era R$130. Sendo que, naquela época, o salário mínimo não alcançava R$500. Não é preciso ser um economista para entender que a Jornada não era para quem queria, mas para quem podia.
Significa que melhorou. É o ideal? Não. Está tudo perfeito e maravilhoso? Não. Eu ainda sonho com o dia em que Jornadas de Literatura custarão quase nada, e quiçá serão gratuitas.
Mas baseio meus anseios na realidade, e sei que o mundo não muda em um piscar de olhos, no apertar de um botão, no estalar de um dedo. O importante é que, de 2009 para 2017, melhorou um pouco, o que já é incrível, uma vez que tantas outras coisas pioraram tanto de lá pra cá.
A arte, a cultura, a literatura precisam se tornar cada vez mais acessíveis. Não podem ser privilégio de meia dúzia. E para que isso aconteça, precisamos levar a arte, a cultura e a literatura até quem quer, mesmo que não possa.