18 setembro 2017

Você perde

Há alguns anos Carazinho mergulhou em uma onda de violência sem precedentes. Casas e estabelecimentos comerciais assaltados à luz do dia. Pedestres roubados em pleno centro às três da tarde. Assassinatos quase não impressionam mais.
Neste contexto, uma notícia abalou minha serenidade já escassa: estamos em vias de perder a instalação de um campus do Instituto Federal de Educação, que, se vier para Carazinho, disponibilizará curso superior gratuito para a comunidade, além de ensino técnico profissionalizante. Uma oportunidade única para nossa cidade, que poderá oferecer uma oportunidade igualmente única para aqueles que querem, mas não podem estudar.
Os altos índices de criminalidade em Carazinho e o descaso com o campus do Instituto – e com a educação de um modo geral – estão diretamente ligados, uma vez que a violência aumenta na mesma proporção em que as oportunidades diminuem.
Na minha visão, o problema da educação em Carazinho (e no resto do país) não é um problema: é um projeto. Estamos carecas de saber que governo nenhum, de partido nenhum, quer um povo pensante e questionador. E qual a maneira mais eficaz de manter o povo alienado, e consequentemente inofensivo? Negando-lhe a chance de aprender, de progredir intelectualmente. Mantendo o nível mental coletivo baixíssimo, fica mais fácil controlar a boiada. Um povo que pensa e questiona torna a vida dos políticos mais complicada.
Acontece que este projeto, de manter o povo mergulhado em sua própria ignorância, tem um furo muito grande. Porque a falta de acesso à educação gera falta de oportunidades, que por sua vez gera estagnação de crescimento. Afinal, pessoas que poderiam estar estudando, produzindo, movimentando a economia, e talvez até gerando emprego e renda, acabam inativas, e ao invés de agregar à sociedade, terminam prejudicando-a.
Em médio e longo prazo, quantos profissionais Carazinho perderá sem o campus do Instituto Federal de Educação? Quantos talentos acabarão simplesmente desperdiçados? E quantos não se tornarão o bandido que apontará uma arma para tua cabeça amanhã?
Manter a massa ignorante pode servir para conservar esta secular estrutura política corrompida, que beneficia meia dúzia em detrimento de muitos. Entretanto, a manutenção da ignorância traz um efeito colateral grave, que afeta a todos, do rico mais rico ao pobre mais pobre.
Porque o país onde vive o político é o mesmo país onde eu, você e o bandido vivem. A cidade violenta na qual eu, você e o bandido moramos é a mesma cidade violenta na qual moram nossos governantes. Somos um só organismo, cujas partes precisam funcionar em consonância para haver harmonia no todo.
Por isso, não são somente os alunos que perdem o campus do Instituto Federal de Educação. Eu perco; você perde. O mais rico e o mais pobre perdem. O prefeito, o ex-prefeito, o secretário e o vereador também perdem.
Carazinho inteiro perde.

15 setembro 2017

Uma pergunta:

Dizemos por aí que não nos importamos com a opinião dos outros, mas sempre que possível buscamos convencer os outros das nossas verdades, impondo nossas certezas, forçando-os a engolir o nosso ponto de vista – e AI daquele que discordar!
Se a opinião do outro não importa, porque nos importamos tanto em fazê-lo mudar de opinião?

07 setembro 2017

Quem são eles?

Você já parou pra pensar quem são os homens que alimentam os dados estarrecedores de violência contra a mulher? Quem são estes caras que agridem, espancam, estupram e matam, deixando o Brasil na indigesta 5ª posição em um ranking global de violência contra a mulher?
Seis em cada dez brasileiros afirmam conhecer mulheres que foram ou são vítimas de violência. E se você conhece a vítima, provavelmente conhece também o agressor, já que, na acachapante maioria dos casos, a violência contra a mulher é cometida por seu namorado, marido ou familiar.
Ou seja: o agressor não é um monstro de sete cabeças no meio da neblina. Ele não é um estranho. Ele é teu amigo, teu vizinho, teu pai, teu irmão. Ele pode ser – veja só! – até mesmo você, caro leitor.
Infelizmente nenhum vem com plaquinha de identificação, e este é o maior problema: o fato de poder ser qualquer um faz com que todos pareçam ser, e é assim que nós, mulheres, passamos a viver em constante estado de medo. Medo de usar uma saia muito curta. Medo de pegar transporte público e privado. Medo de andar na rua às oito da noite ou às três da tarde. Medo daquele desconhecido que caminha atrás de mim na calçada. Medo de precisar chamar o encanador para consertar a torneira quando estou sozinha em casa.
Toda mulher é uma vítima em potencial apenas por ser mulher. Mas os homens que não são violentos também pagam um preço pelos que são, e acabam indiretamente afetados pelo mesmo machismo que nos agride, nos estupra e nos mata. Afinal, se toda mulher é uma vítima em potencial apenas por ser mulher, todo homem é um abusador em potencial apenas por ser homem.
Seria diferente se nós, mulheres, não precisássemos estar sempre alerta. Se pudéssemos confiar no motorista, no encanador, no vizinho, no estranho com quem dividimos a calçada, no amigo que nos dá carona depois da festa. Seria diferente se pudéssemos confiar em ti, leitor.
Então, se você é homem e não agride nenhuma mulher; se você respeita uma desconhecida de minissaia na rua do mesmo jeito que respeita sua mãe; se você não bate, não humilha, não estupra e não mata; antes de se levantar indignado, com o dedo em riste, dizendo “mas nem todo homem...” ou “mas eu não sou assim...”, cale sua boquinha, ouça com atenção e observe o seu entorno.
Porque palavras rasas de autodefesa não mudam a realidade, não diminuem o nosso medo e nem fazem com que menos mulheres sejam agredidas e violadas.
Se você não é, ótimo, mas olhe em volta: você verá que muitos daqueles que te rodeiam, teus amigos do peito, teus bróders, teus camaradas, são os mesmos caras que alimentam as estarrecedoras estatísticas da violência contra a mulher, e me fazem ter medo de chamar o encanador quando estou sozinha em casa.
Você também conhece o agressor. Por isso, se o teu amigo pratica violência e você se cala, saiba que você é conivente. E conivência, meu caro, é cumplicidade. Logo, o nosso medo constante, infelizmente, sempre se justifica.

03 setembro 2017

Sexta-feira foi um dia muito difícil.

Estive no velório do pai de uma das minhas melhores amigas. Mas o tio Teco não era apenas o pai de uma das minhas melhores amigas. Ele era meu amigo também.
Sempre que eu ia visitar a Ana ele passava lá para me dar um abraço – e sempre (SEMPRE!) trazia umas cervejas a mais, porque dizia que a Ana comprava pouca cerveja quando eu ia lá, hahaha.
Nunca vou me esquecer dos abraços, da conversa boa e leve, do sorriso largo e farto que o tio sempre trazia no rosto, na alma e no coração.
Um ser humano especial, de uma energia linda e vibrante, que vai fazer uma falta danada neste mundo careta e quadrado, onde tantos reclamam por tão pouco.
O tio viveu como quis, e isso eu admiro demais: ter coragem de ser quem se é, e assumir a vida que você escolheu viver. Apenas existindo, o tio me ensinou muito.
Após o velório, triste e cansada, entrei na loja Beija-Flor, da Taly, e me deparei com este quadrinho, cuja foto tirei. Sorri discretamente quando o vi.
Porque eu sei, com a mais absoluta certeza, que a vida continua. E é justamente esta a beleza da vida: ela nunca termina.
Como disse o padre durante o velório: o tio deixou o mundo das criaturas e retornou para o mundo do criador.
E é lá que a verdadeira vida acontece.
Tchau, tio.
Até qualquer dia, meu amigo querido!